A triste relativização da moral e nossa omissão diária
![]() |
| Grafite de Goin em um Navio Abandonado |
O ritmo da mudança representa, para as
gerações mais velhas, um desafio inaudito. O contato pessoal escasseia e, com
ele, fragilizam-se as amizades. Visitas de cortesia, que alimentavam o espírito,
pertencem ao passado. A carta manuscrita, que trocava sentimentos e opiniões, virou
digitação eletrônica, fria e breve. E o cartão postal, onde o viajante registrava
lembrança e apreço, simplesmente, sumiu.
A azáfama tecnológica criou o delírio das
redes e relativizou valores morais e de conduta milenares que garantiam o
equilíbrio social. Jovens passaram a projetar, compulsivamente, a própria
imagem nas redes, sem o apoio da consciência. Até leis básicas da natureza são
hoje denegadas para atender a vontades excêntricas. A etimologia foi falseada,
a ponto de transformar sexo em gênero, para forçar o senso comum a aceitar
variantes sociais do homem e da mulher.
Atualmente, quem não observa os fatos para discernir
a verdade termina aspirado pelo turbilhão. Se a pessoa evita o entrechoque para
se proteger, periga migrar da realidade para as bolhas virtuais que já infestam
a sociedade, alastrando a esquizofrenia coletiva. Aos que vivem sem ideais, a esperança
cede lugar ao desencanto e à fuga.
No Brasil, a metamorfose corrompeu,
sobretudo, as instituições do Estado. O Supremo Tribunal Federal investiga, acusa,
julga e condena os inimigos do sistema com sentenças irrecorríveis, como faziam
as troikas de Beria e em linha com a declaração de um ministro militante: “Sigo
as orientações de Lenin”. A Procuradoria Geral da República fecha os “olhos
de ver e ouvidos de ouvir”, quando se trata de investigar aliados.
Por sorte, resta o aleatório da
sincronicidade, que Jung chamava de efeito “acausal”, isto é, sem causa
conhecida, a produzir fatos inteligentes que transcendem a percepção humana e
alteram a ordem das coisas. O caso do banco “Master” escancarou a simbiose de
interesses inconfessáveis da elite governante. Imaginando-se intocáveis, justiceiros
e políticos mergulharam nas facilidades do dinheiro.
A opinião pública a tudo acompanha, inerte
e perplexa. Os guardiões da lei e da ordem acautelam-se no aguardo, não se sabe
de que. E o drama da vida real continua a desenrolar-se ao sabor do inesperado.
Ante a indiferença, é justo lembrar a
memória tristemente célebre de Pôncio Pilatos, que marcou a História para
sempre, por sua omissão perante a injustiça.

General de Exército Maynard Marques de Santa Rosa é oficial reformado do Exército Brasileiro, formado pela Academia Militar das Agulhas Negras (Resende/RJ), tendo servido em 24 Unidades Militares do Território Nacional durante 49 anos de atividade na carreira. Possui mestrado pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Rio de Janeiro e doutorado em ciências militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, também do RJ. No exterior, graduou-se em Política e Estratégia, em pós-doutorado no U.S. Army War College (Carlisle/PA, 1988/89). Foi Ministro-chefe da secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), no Governo Bolsonaro (2019).

"Por sorte, resta o aleatório da sincronicidade, que Jung chamava de efeito “acausal”, isto é, sem causa conhecida, a produzir fatos inteligentes que transcendem a percepção humana e alteram a ordem das coisas." Em meditação, intui: A coincidência é a linguagem da Providência".
ResponderExcluirPerfeito... sair desta situação começa por ter capacidade de percebê-la, até chegar na indignação capaz de provocar a mudança.
ResponderExcluirExcelente! Que venham mudanças.
ResponderExcluirO texto em questão é mais do que uma simples crítica; trata-se de um diagnóstico cortante e visceral sobre a erosão da subjetividade humana e a degradação das instituições que deveriam sustentar a ordem social. Ao percorrer as linhas, percebe-se um fio condutor que une a nostalgia de um tempo mais "palpável" — o das cartas e dos afetos físicos — à denúncia de um colapso ético e jurídico que parece ter sequestrado o Brasil.
ResponderExcluirA análise sobre a tecnologia é precisa ao apontar que a velocidade digital não apenas acelerou a comunicação, mas a resfriou. Onde havia o "apreço" de um cartão-postal, hoje impera a projeção compulsiva de uma imagem vazia nas redes sociais. Essa mudança não é inofensiva; ela é a base para o que o autor chama de "esquizofrenia coletiva", onde a realidade é substituída por bolhas virtuais que isolam o indivíduo da verdade factual.
No que tange à questão do sexo e do gênero, o autor toca em um ponto fundamental que, muitas vezes, é silenciado pelo receio do debate público: o falseamento da etimologia para atender a interesses ideológicos. É perfeitamente razoável concordar que a substituição de categorias biológicas e ancestrais por construções sociais maleáveis agride o senso comum e ignora as leis básicas da natureza. Quando a linguagem é alterada artificialmente para moldar a percepção da realidade, o resultado é, de fato, uma confusão que desestabiliza a fundação da sociedade e fragiliza a compreensão do que é ser homem ou mulher.
Essa desordem conceitual parece transbordar para o campo institucional. A crítica ao Supremo Tribunal Federal e à Procuradoria Geral da República não é mera retórica política, mas o reflexo de um sentimento de insegurança jurídica que permeia o país. A comparação com as práticas de Beria e o totalitarismo soviético serve como um alerta severo sobre o perigo de se concentrar poderes de investigação, acusação e julgamento em uma única mão. O caso do Banco Master surge, nesse cenário, como a prova material de que a "elite governante" opera em uma simbiose de interesses que ignora o bem comum, confiando em uma intocabilidade que o autor espera ver quebrada pela "sincronicidade" — aquela força acausal que, vira e mexe, coloca a verdade diante dos olhos da opinião pública.
Concluo que o texto é um apelo urgente à lucidez. A referência final a Pôncio Pilatos é o golpe de misericórdia na inércia: lavar as mãos diante de um cenário de desconstrução da biologia, da ética e do Direito não é uma postura neutra, mas uma forma de cumplicidade com a injustiça. É uma obra que não busca agradar, mas despertar quem ainda está "inerte e perplexo" diante do turbilhão da modernidade.