A insegurança não é apenas falha policial ou drama social; quando se prolonga, produz dependência, silêncio, encolhimento do cidadão e oportunidade política.
Por Walter Felix Cardoso Junior
Há algo profundamente errado quando uma sociedade cercada pela criminalidade passa a receber, como resposta principal, apenas conselhos para se proteger melhor.
Tranque a porta.
Não use o celular na rua.
Não saia tarde.
Não reaja.
Evite certos lugares.
Desconfie de mensagens.
Cuidado com os idosos.
Cuidado com os filhos.
Cuidado com tudo.
Acostume-se.
Nada disso é inteiramente inútil. Em uma situação concreta, uma cautela pode evitar um golpe, uma invasão, uma abordagem ou uma tragédia. Mas não confundamos prudência da vítima com solução do problema.
Quando a insegurança já tomou conta da rotina, dos trajetos, da vida digital, das escolas, dos comércios, das famílias e até da liberdade de falar, oferecer apenas técnicas de autoproteção é quase admitir que a normalidade foi abandonada.
O cidadão pode melhorar a fechadura. Pode esconder o aparelho. Pode desconfiar da ligação. Pode aprender a viver em alerta. Mas isso apenas confirma que alguém lhe retirou o direito elementar de viver normalmente.
O problema central já não é apenas o crime que assalta, invade, frauda, ameaça, sequestra ou mata. O problema é o ambiente que permite ao crime crescer, adaptar-se, dominar, influenciar e, em certas circunstâncias, tornar-se útil para quem deveria combatê-lo.
A insegurança contemporânea opera por processos. Explora rotinas, informações, fragilidades, necessidades, dependências e medos. O criminoso de hoje pode estudar a vítima antes de abordá-la; pode conhecer seus vínculos familiares, seus hábitos, sua vulnerabilidade financeira, sua solidão ou a hora em que estará mais assustada.
Mas a modernização do crime é apenas parte da questão.
A outra parte, mais grave, é a repetição persistente de métodos criminosos sem contenção real, sem resposta proporcional e sem redução perceptível do domínio exercido sobre a vida comum.
Todo crime tem um processo.
Todo processo tem um método.
E todo método que se repete por tempo suficiente, com resultados semelhantes e impunidade recorrente, começa a revelar uma engrenagem.
É para essa engrenagem que precisamos olhar.
Durante muito tempo, fomos ensinados a tratar a insegurança como consequência quase natural de problemas sociais mal resolvidos: pobreza, abandono, exclusão, desestruturação familiar, vício, desigualdade, ausência de oportunidades e falhas históricas do Estado.
Tudo isso existe. Tudo isso importa. Tudo isso deve ser enfrentado com inteligência e humanidade.
Mas há uma diferença moral decisiva entre compreender as causas que alimentam a criminalidade e aceitar que o cidadão honesto seja entregue indefinidamente às consequências dela. Explicar o agressor não pode significar abandonar a vítima.
Quando o crime deixa de ser ocorrência e passa a organizar territórios, horários, serviços, favores, silêncios e permissões, ele muda de natureza. Já não ameaça apenas corpos e patrimônios. Passa a disputar a normalidade da vida comum.
Nesse ponto, a insegurança deixa de ser apenas drama policial. Ela pode se transformar em matéria-prima de poder.
Serve ao criminoso, evidentemente. Mas pode servir também a quem administra a dependência sem devolver autonomia; a quem oferece tolerância onde deveria haver direito; a quem aprende a conviver com o medo alheio porque dele retira alguma vantagem política, social ou institucional.
Essa é a fronteira em que a omissão prolongada deixa de parecer apenas incapacidade.
Não se trata de acusar levianamente indivíduos determinados. Trata-se de reconhecer processos. Quando a vítima desaparece atrás de explicações intermináveis; quando a lei parece forte para conter a indignação do cidadão e frágil para conter quem o violenta; quando a reação moral da sociedade é tratada como ameaça maior do que a própria criminalidade, já não estamos apenas diante de uma política pública insuficiente.
Estamos diante da possibilidade de uma engrenagem em que a desordem produz poder.
Há também uma segunda camada dessa degradação: a linguagem usada para escondê-la.
Uma sociedade começa a perder a guerra contra a desordem quando perde a coragem de nomeá-la.
O medo passa a ser chamado de adaptação.
A omissão, de cautela institucional.
A tolerância com o intolerável, de sensibilidade.
A insegurança permanente, de complexidade social.
A indignação do cidadão honesto, de extremismo.
A exigência de ordem, de ameaça à democracia.
E, pouco a pouco, quem sofre é levado a acreditar que seu desejo de proteção é moralmente suspeito.
Esse é um dos triunfos mais perversos da máquina: fazer o cidadão honesto sentir vergonha de querer viver em paz.
Não se está propondo brutalidade, revanche ou justiça pelas próprias mãos. Uma sociedade que imita o crime para enfrentá-lo já começou a ser derrotada por ele. Também não se está defendendo indiferença diante das causas da violência.
Recuperar pessoas, prevenir a entrada no crime, proteger crianças, oferecer educação, reconstruir famílias e reduzir vulnerabilidades são deveres de qualquer sociedade digna.
Mas a humanidade não pode ser sequestrada para justificar a rendição.
A compaixão que ignora a vítima não é elevada: é seletiva.
A justiça que não protege o inocente não é complexa: é defeituosa.
A autoridade que teme a firmeza diante do mal não é prudente: está renunciando a parte essencial de sua missão.
O Estado legítimo existe, antes de tudo, para impedir que a vida comum seja submetida à força, ao medo e ao arbítrio.
A segurança verdadeira começa quando o crime encontra limites; quando a vítima volta ao centro da preocupação pública; quando a lei deixa de ser apenas promessa; quando a autoridade serve ao inocente; quando as comunidades deixam de viver sob tutela do medo.
O drama brasileiro talvez esteja exatamente nisso: a insegurança foi naturalizada como clima; o medo foi incorporado como rotina; a cautela da vítima foi vendida como resposta; a omissão foi protegida por discursos; e os processos que convertem desordem em poder ainda permanecem insuficientemente iluminados.
A pergunta, portanto, permanece:
a quem serve uma sociedade permanentemente insegura?
Quando o medo é apenas consequência de um crime, ele exige resposta.
Mas quando o medo começa a produzir dependência, silêncio e poder, a lucidez deixa de ser apenas opinião.
Passa a ser dever.
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Walter Felix Cardoso Junior é coronel veterano do Exército Brasileiro, doutor em Engenharia de Produção pela UFSC, ex-assessor da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-diretor do Departamento de Defesa e Segurança da FIESP. Atuou nas áreas de Inteligência, Defesa, Estratégia, Segurança e liderança institucional. É autor de ensaios, crônicas e reflexões sobre poder, responsabilidade pública, resiliência comunitária, integridade institucional e consciência cívica.
E-mail: wfelixcjr@gmail.com
Casa autoral: https://wfelixcjr3.carrd.co
A série completa Insegurança Galopante, em PDF, e o vídeo de apresentação estão disponíveis em:
https://wfelixcjrpublicacoes.carrd.co

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