A Engrenagem Oculta - Parte II
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“O sistema financeiro usurário instaurou uma forma de servidão moderna, na qual o futuro é hipotecado antes mesmo de nascer. Agora, o narcoterrorismo se junta a essa arquitetura de dominação, convertendo vidas em mercadorias descartáveis e reduzindo a dignidade humana a um resíduo da própria civilização.”
Por Marilene Nunes (*)
Introdução
No artigo de minha autoria intitulado “A engrenagem oculta: globalismo, sistema financeiro e governos de esquerda”, publicado no blog The Eagles View em 10 de fevereiro e na Revista Portal Ambiente Legal em 16 de fevereiro de 2026, argumentei que existe uma complementaridade funcional, e altamente lucrativa, entre políticas sociais amplas, frequentemente desvinculadas de um planejamento econômico consistente, adotadas por governos de esquerda e centro-esquerda, e a lógica de rentabilidade do sistema financeiro usurário globalista. Mostrei que essa convergência não é acidental; decorre de um arranjo institucional que transforma a dívida pública em um ativo extremamente lucrativo, protegido por regras rígidas, autonomia monetária e previsibilidade contratual.
Esse mecanismo opera de forma sofisticada: ao expandir programas sociais sem uma estratégia de crescimento sustentável, o Estado amplia sua necessidade de financiamento e, paradoxalmente, alimenta o mesmo sistema que afirma querer regular ou conter. O paradoxo — governos progressistas ampliando direitos sociais enquanto reforçam mecanismos de valorização financeira — é um dos traços centrais do capitalismo contemporâneo. Ele exige uma análise que articule teoria econômica, sociologia do Estado e história recente, pois revela que, mesmo quando a retórica política se orienta para a inclusão social, a estrutura institucional permanece organizada para garantir a reprodução do capital financeiro usurário global.
Assim, políticas sociais que deveriam promover autonomia cidadã acabam, de forma contraditória, fortalecendo a dependência do Estado em relação aos mercados financeiros internacionais. A expansão de direitos convive com a consolidação de um modelo que subordina a ação estatal às expectativas de investidores, agências de risco e organismos multilaterais.
Neste novo artigo, aprofundo essa discussão, revelando detalhes do processo de financeirização usurária global da economia e mostrando como ele subverte os sujeitos do processo político democrático. Governos de esquerda passam a prestar contas mais aos banqueiros credores do que aos cidadãos que os elegeram. A lógica democrática, fundada na soberania popular, é gradualmente substituída por uma lógica tecnocrática, na qual decisões fundamentais são moldadas por exigências de rentabilidade, metas fiscais e compromissos assumidos com instituições financeiras internacionais.
Esse deslocamento de poder não ocorre de forma explícita, mas por meio de mecanismos institucionais que naturalizam a primazia dos credores, transformando-os em atores centrais da governança estatal. A política, nesse contexto, deixa de ser um espaço de deliberação coletiva e passa a operar como um campo de gestão das expectativas do mercado financeiro usurário.
O processo torna-se ainda mais dramático quando observamos que o lucro, um dado econômico inerente ao capitalismo, converte-se, no contexto da financeirização usurária, em ideologia. O lucro deixa de ser apenas um resultado econômico e passa a carregar um conteúdo normativo, moldando comportamentos, políticas públicas e até a forma como entendemos o“desenvolvimento” e a “segurança pública”, como veremos mais adiante.
A busca incessante por rentabilidade orienta não apenas empresas, mas também governos, que adotam políticas alinhadas à lógica financeira usurária mesmo quando isso contraria interesses sociais mais amplos. A ideologia do lucro infiltra-se no imaginário coletivo, redefinindo prioridades e legitimando práticas que, em outros momentos históricos, seriam vistas como incompatíveis com o bem-estar social. O que antes era uma variável econômica torna-se um princípio organizador da vida social.
Além disso, a financeirização usurária da economia — que tem origem em um ato historicamente ilegal, a institucionalização da agiotagem a partir do século XVIII — hoje engloba outras formas de criminalidade que alimentam a engrenagem do sistema, como a corrupção e o narcoterrorismo. A transformação da usura em prática legalizada abriu caminho para instrumentos financeiros cada vez mais complexos, ampliando o poder do capital financeiro usurário sobre os Estados e destruindo o capital produtivo gerador de valor econômico. Com o tempo, essa lógica incorporou atividades ilícitas que encontraram no sistema financeiro globalizado um ambiente propício para lavagem de dinheiro, circulação de capitais e expansão de redes criminosas que geram lucro sem criar valor.
Integrado à financeirização usurária global, o narcoterrorismo converte-se no braço armado do sistema contra o Estado, assumindo características de uma organização terrorista. Sua atuação ultrapassa o comércio ilegal de drogas e envolve controle territorial, infiltração em instituições públicas e uso sistemático da violência como instrumento de pressão política e econômica. A simbiose entre crime organizado e finanças globalizadas cria um cenário no qual o Estado se vê simultaneamente dependente e ameaçado por estruturas que ele próprio, direta ou indiretamente, ajudou a consolidar.
Assim, a financeirização não apenas redefine a economia: ela reconfigura o próprio conceito de soberania, segurança e governabilidade, deslocando o centro de poder para atores que operam acima das fronteiras nacionais e fora do alcance dos mecanismos tradicionais de controle democrático.
Financeirização usurária: quando o lucro vira ideologia
A financeirização usurária é o processo pelo qual o setor financeiro adquire um peso desproporcional na economia, levando empresas, governos e indivíduos a priorizarem retornos financeiros de curto prazo e reduzindo o espaço dos setores produtivos, como a indústria e o comércio. Trata-se de uma transformação estrutural profunda: a lógica do mercado financeiro usurário infiltra-se em esferas antes orientadas por valores sociais, éticos, culturais ou coletivos — educação, saúde, moradia, cultura e segurança pública — submetendo-as à lógica do lucro imediato.
Nesse contexto, o lucro deixa de ser apenas um indicador de eficiência econômica e se converte no critério dominante para organizar a vida social. Ele passa a definir o que é considerado “racional”, “moderno” ou “eficiente”. Assim, tudo o que não gera lucro rápido é automaticamente classificado como ineficiente, ultrapassado ou inviável.
Esse deslocamento de valores afeta desde políticas públicas até decisões individuais. A financeirização usurária converte dimensões humanas em métricas financeiras: educação torna-se “investimento em capital humano”; saúde transforma-se em “gestão de risco”; cultura vira “produto”; cidades passam a ser tratadas como “ativos imobiliários”. Essa mudança não é neutra: ela redefine o significado das coisas e altera a forma como compreendemos o papel das instituições e das relações sociais. A ideologia se manifesta justamente na naturalização da ideia de que tudo deve se justificar pelo retorno financeiro que alimenta o sistema usurário, como se essa fosse a única forma legítima de avaliar o mundo.
Assim, na financeirização do sistema usurário, o lucro carrega um viés ideológico porque deixa de ser apenas um indicador econômico e se torna critério moral, princípio organizador da sociedade, justificativa para políticas públicas e lente através da qual interpretamos o mundo. Ele define prioridades, legitima desigualdades e orienta decisões que afetam a vida coletiva. Quando o lucro se torna ideologia, a sociedade perde a capacidade de imaginar alternativas, e tudo o que não cabe na lógica financeira usurária é descartado como irracional, mesmo quando é essencial para a vida humana.
A financeirização também redefine profundamente o papel do Estado. Em vez de atuar como garantidor de direitos sociais, o Estado é pressionado a reduzir gastos públicos, atrair investidores, garantir estabilidade para o mercado financeiro e operar como “gestor de riscos”. Essa mudança não é apenas técnica, mas política: ela expressa uma visão de mundo segundo a qual o Estado deve servir prioritariamente aos interesses do mercado financeiro usurário global.
O lucro como ideologia significa que o curto prazo domina o longo prazo. Empresas passam a priorizar dividendos imediatos, mesmo que isso comprometa inovação, empregos, condições de trabalho e sustentabilidade ambiental. O horizonte de planejamento se encurta, e decisões estratégicas são substituídas por metas trimestrais.
Nesse ambiente, a desigualdade deixa de ser vista como um problema social e passa a ser tratada como um “incentivo” econômico. A financeirização usurária legitima a ideia de que a desigualdade é natural, inevitável ou até desejável, pois supostamente estimula competição e produtividade. Essa narrativa desloca a responsabilidade estrutural para o indivíduo: se alguém não prospera, a culpa é atribuída à falta de esforço, e não às condições sociais e econômicas produzidas pela financeirização do sistema usurário. A política, por sua vez, subordina-se ao mercado financeiro: governos passam a tomar decisões com base no impacto sobre juros, câmbio, risco-país e humor dos investidores. O mercado financeiro se torna o árbitro final da sociedade, capaz de premiar ou punir políticas públicas por meio de reações instantâneas.
Assim, na financeirização do sistema usurário, o lucro carrega um viés ideológico porque deixa de ser apenas um indicador econômico e se torna critério moral, princípio organizador da sociedade, justificativa para políticas públicas e lente através da qual interpretamos o mundo. Ele define prioridades, legitima desigualdades e orienta decisões que afetam a vida coletiva. Quando o lucro se torna ideologia, a sociedade perde a capacidade de imaginar alternativas, e tudo o que não cabe na lógica financeira usurária é descartado como irracional, mesmo quando é essencial para a vida humana. Segundo Pedro (2026) trata-se de um arranjo ideológico de inconveniências, subordinado a um arranjo concentrador financeiro cínico, de exclusão dissimulada e segregador de soberanias.
A transição das economias orientadas pela produção para as economias de valorização financeira usurária
A literatura sobre financeirização — como Chesnais (1996), Epstein (2005) e Krippner (2011) — descreve a passagem de economias orientadas pela produção para economias orientadas pela valorização financeira usurária. François Chesnais argumenta que o capital financeiro global opera como uma estrutura de poder transnacional capaz de capturar os Estados por meio de mecanismos de endividamento, disciplina fiscal e imposição de normas que priorizam a estabilidade financeira. Essa captura não ocorre apenas pela pressão direta dos mercados, mas também pela internalização, pelos próprios governos, de expectativas e padrões de comportamento que colocam a lógica financeira usurária acima do desenvolvimento produtivo.
Assim, decisões de política econômica passam a ser moldadas por critérios de rentabilidade e previsibilidade, mesmo quando contrariam interesses sociais mais amplos.
No livro Buying Time (Tempo Comprado), o sociólogo alemão Wolfgang Streeck (2014) mostra como os Estados democráticos passaram, desde os anos 1980, de “Estados fiscais” para “Estados endividados”, tornando-se crescentemente dependentes dos mercados financeiros para financiar políticas públicas e programas sociais. Essa dependência gera uma forma de soberania limitada, na qual o eleitorado perde espaço para os credores. Streeck argumenta que, ao substituir a legitimidade democrática pela legitimidade dos mercados financeiros, os Estados passam a governar sob vigilância permanente, ajustando políticas internas para satisfazer expectativas externas.
O resultado é um deslocamento do centro de gravidade da política: do cidadão para o investidor, do voto e da deliberação democrática para a avaliação financeira usurária global.
David Harvey (2004) interpreta esse processo como parte da lógica da “acumulação por despossessão”, na qual mecanismos financeiros extraem valor de economias periféricas — como África e América Latina — por meio de juros elevados, serviços da dívida e restrições institucionais impostas por organismos multilaterais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Ao condicionarem empréstimos a reformas estruturais, essas instituições limitam a soberania nacional e moldam o Estado segundo interesses financeiros globais. A financeirização usurária, portanto, não é apenas um fenômeno econômico; é também um fenômeno político, pois redefine quem decide, quem controla e quem se beneficia das decisões.
No campo heterodoxo, Bresser-Pereira (2014) argumenta que, sem uma estratégia de transformação produtiva, o gasto social tende a expandir o consumo, mas não a capacidade produtiva, reforçando a dependência do Estado em relação ao endividamento contínuo. O problema central da pobreza mundial é o endividamento permanente causado pelo sistema financeiro usurário. A ausência de políticas industriais e tecnológicas impede que o aumento da demanda se converta em dinamismo econômico, levando o Estado a recorrer repetidamente ao mercado financeiro global para sustentar políticas sociais.
Nunes (2026) sustenta que esse processo não é acidental, mas parte da engrenagem que oculta a relação entre governos de esquerda e centro-esquerda e o sistema financeiro usurário global. Segundo a autora, a manutenção de políticas sociais sem ruptura com o sistema financeiro vigente cria uma aparência de progressismo enquanto, na prática, reforça a subordinação do Estado ao capital financeiro global, escravizando nações e seus povos.
Nesse contexto, políticas sociais amplas, quando não acompanhadas de um projeto de mudança estrutural macroeconômica, acabam reforçando a dependência do Estado em relação ao endividamento contínuo. A expansão de gastos sociais, sem aumento correspondente de produtividade, diversificação econômica ou política industrial, intensifica a necessidade de financiamento público. Esse processo transforma títulos soberanos em ativos de alta rentabilidade e baixo risco, alimentando o circuito de valorização financeira e fortalecendo o poder dos credores sobre o Estado e, consequentemente, sobre os indivíduos.
A autonomia dos bancos centrais, defendida por economistas ortodoxos e criticada por heterodoxos, funciona como um dispositivo institucional que separa a política monetária das prioridades democráticas. Ao garantir previsibilidade aos credores e blindar decisões monetárias de pressões populares, essa autonomia limita a capacidade de governos de esquerda e centro-esquerda de alterar o regime macroeconômico. O resultado é a produção de uma servidão política e econômica: mesmo quando governados por coalizões progressistas, os Estados permanecem presos a um arcabouço institucional que privilegia a estabilidade financeira em detrimento da transformação social.
Assim, políticas sociais progressistas, paradoxalmente, fortalecem a lógica financeira que restringe a própria capacidade de transformação estrutural que esses governos afirmam promover, reduzindo seus projetos a retóricas incapazes de alterar a realidade. A financeirização usurária não apenas redefine prioridades econômicas, mas também limita o horizonte político, estreitando o espaço de ação dos governos e condicionando o futuro das democracias à lógica dos mercados financeiros.
Esse conjunto de elementos ajuda a explicar o fracasso econômico recorrente de governos de esquerda e centro-esquerda que, apesar de proclamarem a proteção social, permanecem presos a estruturas financeiras usurárias que drenam recursos, restringem investimentos estratégicos e mantêm os países em um ciclo persistente de estagnação e pobreza. Em termos teóricos, trata-se de uma manifestação contemporânea da “armadilha da financeirização periférica”, na qual o Estado assume simultaneamente o papel de provedor social e garantidor da rentabilidade financeira, mas sem capacidade de romper com a lógica que o mantém estruturalmente subordinado, tornando-se parte essencial da engrenagem do capital financeiro usurário.
A subversão da soberania democrática
A complementaridade funcional entre políticas sociais amplas e o regime financeiro usurário global não produz apenas efeitos econômicos; ela subverte a própria natureza da soberania democrática. Como argumenta Streeck (2014), a transição do “Estado fiscal” para o “Estado endividado” desloca o eixo de responsabilidade dos governos, que passam a responder menos aos cidadãos e mais aos credores. Esse deslocamento altera o fundamento da legitimidade política, pois a capacidade de decisão coletiva é progressivamente substituída por exigências de rentabilidade e disciplina fiscal impostas pelos bancos.
Esse processo gera um paradoxo político profundo. Partidos de esquerda, eleitos com a promessa de ampliar direitos sociais e reduzir desigualdades, acabam alinhados a instituições que priorizam a estabilidade financeira do sistema usurário e a previsibilidade contratual dos credores. A consequência é uma crescente frustração democrática: a população percebe que suas escolhas eleitorais têm impacto limitado, pois decisões centrais são determinadas por regras que não foram deliberadas politicamente, mas apresentadas como “técnicas”, “neutras” ou “inevitáveis”. A política transforma-se em gestão, e a gestão subordina-se ao mercado financeiro usurário global.
A financeirização não opera apenas por meio de mercados; ela se materializa em instituições que moldam o comportamento dos governos. Entre os principais dispositivos de disciplinamento institucional estão:
• metas rígidas de inflação, que subordinam a política monetária ao controle de preços, frequentemente à custa do emprego e do investimento;
• autonomia dos bancos centrais, que transfere decisões estratégicas para autoridades não eleitas, alinhadas às expectativas dos mercados;
• regras fiscais restritivas, como tetos de gastos, superávits primários e limites de endividamento, que comprimem o espaço de ação do Estado;
• regimes cambiais e monetários pró‑mercado, que priorizam a confiança dos investidores internacionais e limitam políticas de desenvolvimento.
Esses mecanismos funcionam como “travas institucionais” que impedem mudanças estruturais profundas. Mesmo quando existe vontade política, o resultado é a erosão programática dos governos, que se veem obrigados a administrar restrições impostas por um arcabouço institucional desenhado para proteger os interesses financeiros usurários.
A teoria da dependência estrutural do Estado em relação ao capital, desenvolvida por Offe (1984), Przeworski (1995) e Lindblom (1988), ajuda a explicar por que governos progressistas raramente rompem com o regime financeiro. O Estado depende do investimento privado para gerar emprego, renda e arrecadação. Qualquer política que ameace a rentabilidade financeira pode desencadear reações imediatas, como fuga de capitais, aumento do risco‑país, desvalorização cambial, elevação dos juros e retração do investimento. Essas reações disciplinam governos e reforçam a captura institucional.
Nos países periféricos, essa dependência é ainda mais intensa devido à vulnerabilidade externa e à necessidade de financiamento em moeda estrangeira. As consequências para a estabilidade política são significativas: a combinação de expectativas sociais elevadas e restrições institucionais rígidas produz tensões profundas. O caso brasileiro entre 2013 e 2016 é emblemático: a frustração com os limites do modelo lulista, somada à crise fiscal, alimentou polarização, instabilidade e ruptura institucional.
A financeirização usurária globalista cria um ambiente no qual políticas de desenvolvimento, industrialização, inovação, infraestrutura e reorientação produtiva tornam-se secundárias ou inviáveis. Os países hoje desenvolvidos utilizaram políticas industriais ativas, mas agora impõem aos demais um regime institucional que impede tais estratégias, produzindo um bloqueio estrutural ao desenvolvimento econômico e social. O resultado é um ciclo de estagnação que perpetua pobreza e desigualdade, ao mesmo tempo em que restringe a capacidade de ação dos governos.
A soberania democrática é corroída não por golpes explícitos, mas por mecanismos que tornam a usura institucional um dispositivo de deslocamento do poder decisório para atores financeiros usurários globais.
A integração do narcoterrorismo à complementaridade do sistema financeiro usurário global
A relação entre narcoterrorismo e financeirização usurária da economia pode parecer menos evidente à primeira vista, mas, quando se observa como o crime organizado opera dentro do capitalismo financeiro globalizado, a conexão se torna clara.
O narcotráfico deixou de ser apenas uma atividade criminosa “local”. Ele funciona como uma empresa transnacional, com cadeias de produção, distribuição e logística internacional, possuindo sistemas de lavagem de dinheiro e estabelecendo relações com mercados financeiros formais e informais. Isso ocorre quando grupos narcoterroristas acumulam grandes volumes de capital e precisam inserir esse dinheiro no sistema financeiro global. É nesse ponto que a financeirização se torna central.
A financeirização usurária cria brechas e oportunidades à medida que a economia passa a ser dominada por fluxos financeiros e ativos especulativos, possibilitando movimentações de capital altamente desreguladas. Esse ambiente favorece o narcoterrorismo porque a circulação rápida e opaca de capitais facilita a lavagem de dinheiro. Paraísos fiscais, criptomoedas, fundos de investimento complexos e operações de alta frequência criam camadas de opacidade que dificultam o rastreamento. Além disso, instituições financeiras podem ser cooptadas: bancos, corretoras e empresas de fachada podem ser usados para lavar dinheiro. A compra de ativos por meio de transferências internacionais disfarçadas, somada à volatilidade e à especulação, permite “esconder” grandes somas de capital. Mercados financeiros hipercomplexos tornam mais fácil misturar dinheiro ilícito com fluxos institucionalizados considerados legítimos.
Devido a essas facilidades, o narcoterrorismo se adaptou rapidamente ao capitalismo financeiro usurário. Os grupos narcoterroristas não apenas utilizam o sistema financeiro, mas se comportam como agentes financeiros integrados ao mecanismo usurário quando investem em imóveis, agronegócio, mineração e criptomoedas. Eles criam empresas legais para lavar dinheiro e participam de mercados globais de commodities, influenciando economias locais e nacionais.
Em alguns países, o capital do narcotráfico chega a representar porcentagens significativas do PIB informal, devido à economia altamente financeirizada — fator que leva o Estado a perder a capacidade de controlar o fluxo de capitais, fragilizando os serviços públicos. A precarização social cria terreno fértil para o recrutamento pelo crime organizado. Assim, a financeirização não apenas facilita o narcoterrorismo, como também cria condições sociais que o fortalecem. A relação final é um ciclo de retroalimentação.
O narcoterrorismo gera grandes volumes de capital ilícito porque se aproveita da opacidade do sistema financeiro usurário global; nesse processo, o Estado se desestabiliza na mesma proporção em que atua como ator econômico. No fim, os dois fenômenos se reforçam mutuamente.
A relação entre narcoterrorismo e financeirização usurária revela como o crime organizado se integra às disputas de poder globais, aproveitando brechas criadas pela fragmentação financeira internacional e pela competição entre grandes potências. A financeirização não apenas facilita a circulação do capital ilícito, mas também molda alianças, conflitos e estratégias estatais em escala global.
A financeirização da economia global sempre dependeu da integração financeira livre e da circulação de capitais, de bancos interconectados, paraísos fiscais, fundos offshore e zonas cinzentas financeiras onde a supervisão é fraca — jurisdições alternativas que permitem a grupos criminosos movimentar capital longe do escrutínio ocidental. Mercados paralelos de crédito, criptomoedas e commodities são controlados por Estados ou atores que desafiam a ordem financeira dominante.
A integração entre narcoterrorismo e sistema financeiro usurário global tem efeitos diretos e profundos sobre a segurança pública. A financeirização não apenas facilita a circulação de capital ilícito, mas também altera a estrutura de poder dentro dos territórios, redefinindo a relação entre Estado, crime organizado e sociedade. Com acesso a fluxos financeiros globais, grupos narcoterroristas ampliam sua capacidade de adquirir armamentos sofisticados, financiar redes de corrupção, controlar territórios urbanos e rurais, cooptar agentes públicos e substituir o Estado em funções sociais básicas, constituindo-se como poder paralelo. A financeirização usurária transforma o crime organizado em um ator econômico com poder de barganha e capacidade de governança territorial. Em regiões onde o Estado é frágil, o narcoterrorismo se torna o provedor de “segurança”, “justiça” e “assistência social”, criando uma soberania paralela.
A infiltração do narcoterrorismo em instituições estatais é facilitada pela circulação de capitais ilícitos em grande escala. A corrupção deixa de ser episódica e se torna estrutural. Isso afeta polícias, sistemas penitenciários, prefeituras, câmaras municipais, órgãos de fiscalização e setores do Judiciário. A segurança pública é capturada pelo narcoterrorismo. Assim, a financeirização cria incentivos para que agentes públicos se tornem cúmplices ou dependentes do crime organizado, corroendo a capacidade do Estado de garantir segurança.
A precarização social gerada pelas políticas de complementariedade ao funcionamento altamente lucrativo do sistema financeiro global funciona como combustível do narcoterrorismo. A financeirização usurária fragiliza políticas sociais, reduz investimentos públicos e aprofunda desigualdades. Essa precarização cria um ambiente ideal para o recrutamento de jovens pelo narcoterrorismo, que oferece renda, pertencimento, proteção, mobilidade social rápida e identidade coletiva. Assim, a crise da segurança pública não é apenas policial; é econômica, social e institucional.
A segurança pública, portanto, torna-se refém de dinâmicas financeiras globais que escapam ao controle dos Estados nacionais.
Considerações Finais
Desde o pós-guerra, capitalismo de financeirização usurário e democracia coexistiram de forma tensa, mas funcional. Esse equilíbrio, porém, começou a ruir a partir dos anos 1970. O posto-chave é que as demandas democráticas por igualdade e proteção social tornaram-se incompatíveis com as exigências do capitalismo por disciplina fiscal, competitividade e liberdade de mercado. O Estado, pressionado por ambos os lados, passou a “comprar tempo” para adiar a crise, mas cada mecanismo de adiamento gerou novos problemas.
Na situação atual, as implicações políticas e institucionais do regime de complementaridade entre políticas sociais, financeirização usurária global, governança de esquerda e narcoterrorismo revelam um quadro estruturalmente adverso e dramático, no qual governos, especialmente os de esquerda na periferia, operam dentro de um novo arranjo que sabota suas próprias promessas. O problema não está apenas nas escolhas governamentais, mas em uma arquitetura institucional desenhada para limitar alternativas, disciplinar dissidências e reproduzir dependência. Sem uma ruptura profunda com esse regime, envolvendo política monetária, regras fiscais, governança financeira internacional e estratégias de desenvolvimento, qualquer projeto transformador continuará condenado a administrar a escassez, e não a superá-la.
A relação entre narcoterrorismo e governos de esquerda tampouco pode ser tratada como exceção ou anomalia. Ela emerge justamente das fissuras produzidas por Estados fragilizados, economias subordinadas e instituições capturáveis pelo sistema financeiro usurário global.
Nos regimes ditatoriais de esquerda, o cenário é ainda mais grave. A realidade mostra que governos de partido único ou totalitário, como era na Venezuela e Coreia do Norte, incorporaram o narcotráfico à sua própria lógica de poder. Nesses casos, o crime organizado deixa de ser um ator externo e passa a integrar a engrenagem estatal, funcionando como fonte de financiamento, mecanismo de controle político e instrumento de sobrevivência do regime. A fronteira entre Estado e crime se dissolve, e o narcotráfico se converte em pilar de governança.
Já em democracias governadas pela esquerda, o fenômeno assume a forma de subversão. Em países como México, Colômbia e Brasil, o narcotráfico infiltra-se no Estado por meio de corrupção, captura institucional e controle territorial. A fragilidade democrática e a ausência de reformas estruturais tornam o Estado permeável ao narcoterrorismo que se integra a lógica do sistema financeiro usurário global.
Sem transformações estruturais profundas, governanças de esquerda e centro esquerda continuarão presos a um jogo de forças assimétrico, no qual o sistema financeiro internacional e o crime organizado impõem limites concretos à capacidade de promover mudanças sociais substantivas. O resultado é um ciclo de frustração política, erosão de legitimidade e crescente vulnerabilidade democrática.
A compreensão essencial é que a financeirização usurária global não se apoia exclusivamente no endividamento estatal, mas na expansão do poder e da centralidade do setor financeiro sobre o conjunto da economia e sobre a esfera política. É um problema de natureza estrutural, cuja complexidade ultrapassa explicações meramente conjunturais.
Referências
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NUNES, Marilene. A engrenagem oculta: globalismo, sistema financeiro e governos de esquerda. Disponível em: https://www.ambientelegal.com.br/a-engrenagem-oculta-globalismo-sistema-financeiro-e-governos-de-esquerda/. Acesso em: 1 abr. 2026.
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STREECK, Wolfgang. Buying time: the delayed crisis of democratic capitalism. London: Verso, 2014.
(*) Sobre a autora
*Marilene Nunes é Doutora em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo (USP), Mestra em Economia Política e Pedagoga pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além de Especialista em Gestão do Conhecimento pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). Possui ampla experiência acadêmica, tendo atuado como docente e pesquisadora na Universidade Estadual Paulista (UNESP), com participação na Graduação e nos Programas de Pós-Graduação em nível de Mestrado e Doutorado, desenvolvendo atividades de ensino, pesquisa e orientação acadêmica. Lecionou no Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental da Universidade SENAC, onde orientou diversos projetos voltados à temática ambiental. Integra o Núcleo de Estudos Diversitas da USP e atuou como especialista no Conselho Estadual de Educação de São Paulo (CEE) e no Ministério da Educação durante a gestão Bolsonaro. Atualmente, exerce a função de Diretora Pedagógica da UNIÁGUA (Instituto Universidade da Água), é consultora nas áreas de Gestão Educacional e Educação Ambiental da AICA – Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental e membro do Conselho Editorial do Portal e Revista Ambiente Legal. É autora de diversas publicações nacionais e internacionais, além de escrever regularmente para o blog The Eagle View e para a Revista Digital Portal Ambiente Legal.


Excelente. Traga sempre essas considerações para que possamos compreender a sistemática da ordem progressista econômica e suas ligações. Até a próxima
ResponderExcluirObrigada! Continuarei sim!
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