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quinta-feira, 21 de maio de 2026

NO CLIMA, O TEMPO TAMBÉM É SENHOR DA RAZÃO

Dinâmica Oceânica, Reorganização Tectônica, Atividade Vulcânica e a Mudança de Paradigma nos Cenários Climáticos da ONU


Imagem- ONU



Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro


A inflexão do IPCC é a prova viva que a ciência, quando pressionada pela realidade, acaba voltando ao eixo. Geologia, astrofísica, dinâmica oceânica, magnetosfera - tudo aquilo que  apontamos por anos como ausentes do debate -  agora retornam pela porta da frente. 

Durante décadas, o debate sobre mudanças climáticas foi sequestrado por uma militância ruidosa, que transformou uma questão complexa e multifatorial em um dogma inquestionável. A narrativa dominante, alimentada por projeções alarmistas e modelos altamente sensíveis, impôs uma visão apocalíptica que pouco dialogava com a realidade observada.

Mas não há discurso que resista à dura realidade dos fatos. Em outro artigo, cuja leitura recomendo, informei a edição recente do Relatório do Departamento de Energia dos Estados Unidos da América (DOE) - “A Critical Review of Impacts of Greenhouse Gas Emissions on the U.S. Climate”, publicado em julho de 2025, o qual confirma aquilo que muitos cientistas e pensadores independentes, inclusive este subscritor,  vinha alertando há anos: a ciência climática está longe de ser consensual, e os modelos utilizados para justificar políticas draconianas carecem de precisão e humildade epistemológica.

Agora, o próprio Painel Científico Intergovernamental - IPCC, começa a se enquadrar, abstraindo-se das questões políticas geradas pela burocracia engajada da ONU, para encarar o seu verdadeiro papel de receptor convergente de informações técnicas. 

O debate climático contemporâneo sempre oscilou entre a ciência empírica, que observa o planeta como um sistema dinâmico e complexo, e as narrativas políticas, que frequentemente reduzem essa complexidade a modelos unifatoriais. 

Durante mais de uma década, o cenário extremo RCP8.5 — e sua versão atualizada SSP5‑8.5 — foi tratado como projeção dominante de aquecimento global. Embora concebido originalmente como um cenário limite, ele acabou sendo utilizado como previsão central, alimentando discursos apocalípticos, políticas de urgência e agendas econômicas de alto custo.

Em 2026, porém, ocorre uma mudança histórica. Um artigo publicado na revista Geoscientific Model Development, assinado por Detlef van Vuuren, um dos arquitetos originais dos RCPs, reconheceu oficialmente que RCP8.5/SSP5‑8.5 é “implausível” diante das tendências reais de energia, tecnologia e políticas globais. Trata‑se da mais significativa correção epistemológica da ONU/IPCC em décadas, com impacto direto sobre o próximo ciclo de relatórios (AR7, 2028–2029).

A ONU, portanto, abandona seu cenário mais alarmista — aquele que sustentou manchetes catastróficas, justificou gastos públicos desproporcionais e fomentou o que críticos chamam de climate scam.  

O tempo, como sempre, é senhor da razão.

É nesse contexto que este artigo se insere: demonstrando que os extremos recentes — El Niño, vulcanismo, rift africano — são expressão de um planeta vivo, pulsante e interconectado, cuja dinâmica ultrapassa em muito as projeções centradas exclusivamente no carbono.


1. INTRODUÇÃO


Entre 2023 e 2025, o planeta registrou uma sucessão de eventos extremos: ondas de calor oceânicas, tempestades severas, enchentes históricas, secas prolongadas e instabilidades atmosféricas. Embora frequentemente atribuídos ao aumento de gases de efeito estufa, esses eventos também refletem processos geofísicos profundos — desde a intensificação do ENOS até o aumento da atividade vulcânica, a reorganização tectônica da África Oriental, o deslocamento acelerado do polo magnético e a intensificação das emissões solares.

Todos esses fenômenos têm algo em comum: representam redistribuições de energia no sistema Terra–Oceano–Atmosfera–Sol.


2. O EL NIÑO 2023–2024 E A DINÂMICA OCEANO–ATMOSFERA


O El Niño 2023–2024 destacou‑se pela intensidade, comparável aos grandes eventos de 1997–98 e 2015–16. O Pacífico equatorial apresentou anomalias superiores a +1,5°C, enquanto ondas de calor oceânicas cobriram mais de um quarto da superfície marinha global. O resultado foi um conjunto de impactos assimétricos: secas severas no Norte e Nordeste do Brasil, tempestades intensificadas no Sul e alterações profundas nos padrões de circulação atmosférica.

O ENOS é um fenômeno cíclico, governado por ondas de Kelvin, colapso dos ventos alísios, supressão da ressurgência e redistribuição de calor oceânico. Estudos recentes sugerem que o vulcanismo submarino no Círculo de Fogo pode amplificar anomalias térmicas profundas, influenciando a intensidade dos eventos, como é o caso do risco do Super El Niño, que discorro a seguir. 


2.1 - O RISCO DE UM SUPER EL NIÑO 


Vale registrar, de forma clara e sem alarmismo, que há hoje um risco real de um Super El Niño — não por causa de carbono, mas porque o Pacífico está carregado de energia como poucas vezes se viu.

O que está acontecendo é simples de entender. O oceano está quente por cima,  porque o ciclo natural do ENOS favorece o aquecimento. Por baixo, porque a atividade vulcânica submarina no Círculo de Fogo está acima da média, liberando calor nas profundezas do Pacífico.

A isso se soma um Atlântico igualmente anômalo, que altera a circulação atmosférica e enfraquece os ventos alísios — justamente o gatilho que costuma disparar os El Niños mais fortes.

E, como se não bastasse, o Sol entrou em fase de atividade intensa, mexendo com a ionosfera e com a dinâmica dos ventos de grande escala.

Ou seja: os ingredientes estão na mesa.

Isso não significa que teremos um Super El Niño inevitavelmente, mas significa que o risco existe, e é maior do que o discurso oficial admite.

E aqui está a ironia. Justo agora que o IPCC recua do catastrofismo e admite que seus cenários mais extremos eram implausíveis, o oceano resolve lembrar que a natureza não segue planilhas.

Se um Super El Niño vier, seus efeitos serão conhecidos. Chuvas pesadas e tempestades no Sul, secas no Norte e Nordeste, calor extremo no Sudeste e risco de incêndios no Centro-Oeste.

Nada disso é novidade. O que transforma fenômenos naturais em tragédias é a velha conhecida falta de governança.

O El Niño não mata ninguém. Quem mata é a ausência de drenagem, de contenção, de defesa civil, de planejamento e de manutenção.

O clima apenas revela — com brutalidade — o que a gestão pública insiste em esconder.


3. VULCANISMO: A ENERGIA QUE SOBE DO INTERIOR DA TERRA


A NOAA estima que cerca de 75% da atividade vulcânica global ocorre sob os oceanos. Erupções submarinas aquecem diretamente a água, alteram gradientes térmicos, modificam correntes e influenciam a formação de tempestades. A erupção de Hunga Tonga–Hunga Ha’apai (2022), por exemplo, injetou vapor d’água na estratosfera em escala inédita, alterando temporariamente o balanço radiativo global.

Simultaneamente, vulcões continentais como Etna, Kilauea, Popocatépetl e Nyiragongo entraram em ciclos de reativação, indicando aumento de pressão tectônica global.


4. A FENDA AFRICANA: TECTONISMO EM TEMPO REAL


A abertura acelerada da Fenda Africana — parte do Rift Africano Oriental — é um dos eventos tectônicos mais relevantes do século XXI. Fissuras de quilômetros se abriram em questão de dias, acompanhadas por subsidência acelerada, aumento da sismicidade e reativação de vulcões associados ao rift.

Esse processo, que no futuro levará à formação de um novo oceano, já altera padrões regionais de circulação atmosférica, transporte de umidade e correntes costeiras.


5. INTERAÇÕES MAGNÉTICAS E SOLARES


O deslocamento acelerado do polo magnético norte e a expansão da Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS) aumentam a vulnerabilidade regional a tempestades geomagnéticas, interferências eletromagnéticas e instabilidades atmosféricas. Paralelamente, o Sol entrou em fase antecipada de atividade, com múltiplas ejeções de massa coronal e flares de alta intensidade, afetando diretamente a ionosfera e modulando a variabilidade climática de curto prazo.


6. DISCUSSÃO — PLANETA EM MOVIMENTO E GOVERNANÇA EM PARALISIA


Os dados apresentados mostram que os extremos climáticos recentes são expressão de um sistema planetário multifatorial, não linear e interconectado.  

Entretanto, a governança climática dominante — centrada quase exclusivamente no carbono — ignora fatores essenciais como geodinâmica profunda, vulcanismo submarino, reorganização tectônica, variabilidade magnetosférica, forçantes solares e ciclos oceânicos naturais.

Essa redução epistemológica tem consequências práticas: desastres previsíveis tornam‑se inevitáveis.

A tragédia do Rio Grande do Sul (2024) é emblemática. Não foi um desastre climático, mas administrativo, resultado de décadas de abandono de obras de contenção, estações de bombeamento inoperantes, comportas sem manutenção, dragagem impedida por burocracia, ocupação desordenada e ausência de defesa civil integrada.


7. A REVIRAVOLTA DO IPCC — O FIM DO CENÁRIO EXTREMO RCP8.5


A decisão de abandonar o cenário RCP8.5/SSP5‑8.5 representa uma inflexão histórica. Durante 15 anos, esse cenário dominou modelos climáticos, alimentou narrativas apocalípticas, justificou políticas de urgência, sustentou agendas de “net‑zero” e influenciou mercados financeiros e taxonomias ESG.

O reconhecimento oficial de que o cenário é “implausível” expõe a fragilidade de políticas construídas sobre projeções extremadas e confirma o argumento central deste artigo:

A-  o verdadeiro desastre climático não é físico — é institucional.  

B-  a governança foi guiada pelo alarmismo, não pela geofísica.


8. CONCLUSÃO — HUMILDADE, CIÊNCIA REAL E GOVERNANÇA EFETIVA


A Terra é um sistema dinâmico e interconectado. Não controlamos o Sol, o campo magnético, as placas tectônicas, o oceano profundo ou os arcos vulcânicos.  

Mas podemos — e devemos — controlar drenagem urbana, contenção de enchentes, uso do solo, defesa civil, monitoramento, adaptação e resiliência local.

O verdadeiro desastre climático não está no planeta — está na governança refém do proselitismo.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Artigos:

MOLION, L.C.B. (2006). The influence of the nodal cycle on Arctic climate. ICES Journal of Marine Science, 63: 401–420.

MOLION, L.C.B. - "CLIMA GLOBAL E EFEITO-ESTUFA", in The Eagle View, in https://www.theeagleview.com.br/2025/01/clima-global-e-efeito-estufa.html

MOLION, L.C.B. - "COMPREENDENDO A GÊNESE DO EL NIÑO - O CLIMA COMO ELE É", in The Eagle View, in https://www.theeagleview.com.br/2025/01/compreendendo-genese-do-el-nino-o-clima.html

PINHEIRO PEDRO, Antonio Fernando - "CQD! O MÉTODO CIENTÍFICO DESMASCARA A MILITÂNCIA CLIMÁTICA", in The Eagle View, in  https://www.theeagleview.com.br/2025/09/cqd-o-metodo-cientifico-desmascara.html

PINHEIRO PEDRO, Antonio Fernando - "O GRANDE DESASTRE CLIMÁTICO É A INCOMPETÊNCIA DA GOVERNANÇA, REFÉM DO PROSELITISMO", in The Eagle View, in https://www.theeagleview.com.br/2024/05/o-grande-desastre-climatico-e.html

PINHEIRO PEDRO, Antonio Fernando - "TUDO ESTÁ CONECTADO - APAGÕES NA TERRA, CALOR E FRIO, CICLONES NO MAR, VULCÕES E O SOL", in The Eagle View, in https://www.theeagleview.com.br/2023/08/apagoes-na-terra-eletromagnetismo-e-o.html

PINHEIRO PEDRO, Antonio Fernando - "GESTÃO DO CLIMA PELA BASE", in The Eagle View, in https://www.theeagleview.com.br/2023/03/o-clima-pela-base.html

RODRIGUES, R. et al. (2023) - Marine Heatwaves and Atmospheric Responses in the South Atlantic. UFSC.

Spencer, R.W. (2016). Latest Global Temperatures. Disponível em: http://www.drroyspencer.com/latest-global-temperatures/ (drroyspencer.com in Bing)

Documentos: 

NOAA – National Oceanic and Atmospheric Administration. Submarine Volcanism and Ocean Heating. Relatórios diversos.

World Meteorological Organization (WMO). State of the Global Climate 2023.

CEMADEN – Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais. Notas Técnicas sobre ENOS 2023–2024.

USGS – United States Geological Survey. East African Rift System: Tectonic Evolution and Current Activity.

NASA. South Atlantic Magnetic Anomaly: Observations and Implications.

US DOE Report: “A Critical Review of Impacts of Greenhouse Gas Emissions on the U.S. Climate”

IPCC - Intergovernamental Painel of Climate Change: "News Comment - May 2026" - in  https://www.ipcc.ch/2026/05/20/ipcc-news-comment-scenarios/

CB - Carbon Briefing - About the RCP8.5 Climate Scenario - in https://www.carbonbrief.org/factcheck-trumps-false-claims-about-the-ipcc-and-rcp8-5-climate-scenario/




Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista e consultor estratégico e ambiental. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados, é diretor da AICA - Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental. Integrou o Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, para elaborar o Green Economy Report da ICC,  foi professor da Academia de Polícia Militar do Barro Branco, docente do NISAM - Núcleo de Informações e Saúde Ambiental da USP e Consultor do PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e do UNICRI - Interregional Crime Research Institute, das Nações Unidas. Possui vários trabalhos e consultorias publicados para o Banco Mundial, IFC e outros organismos multilaterais. Autor de vários artigos publicados, trabalhos em coletâneas e obras coletivas e da Obra "O Direito Ambiental no Contexto da Complexidade Social" ( Ed. Dia a Dia Forense - 2023).  Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros – IAB,  integra o Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política da FIESP - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Foi o Primeiro Coordenador do Centro de Estudos Estratégicos d o Insntituto Iniciativa DEX. Preside a tradicional entidade UNIÁGUA - Universidade da Água. Foi Secretário do Verde e Meio Ambiente (Gestão Régis de Oliveira) e primeiro Secretário Executivo de Mudanças Climáticas (Gestão Ricardo Nunes), da Cidade de São Paulo. Fundou e Presidiu a Comissão de Meio Ambiente da OAB SP, sendo declarado membro emérito pelo Conselho Seccional. Coordenou o Grupo Técnico organizado para elaborar o texto substitutivo do PL da Política Nacional de Mudanças Climáticas, na Relatoria do Deputado Federal Mendes Thame - apresentado, aprovado e sancionado em 2009. Como Jornalista, é Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa - API e  Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo Blog Analítico The Eagle View.


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