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segunda-feira, 11 de maio de 2026

A DIFÍCIL ARTE DE DISCORDAR SEM DESTRUIR

 Entre o certo, o bem e o cuidado com a palavra




Por Walter Felix Cardoso Junior


Há uma diferença importante entre saber o que é certo ou errado e escolher entre o bem e o mal.

O certo e o errado costumam aparecer nas regras, nas normas, nos procedimentos e nas obrigações. É quando perguntamos: “isso está correto?”, “isso está dentro da regra?”, “isso pode ou não pode?”.

Mas o bem e o mal estão num lugar mais profundo. A pergunta já não é apenas se algo está certo no papel. A pergunta passa a ser outra: isso ajuda ou prejudica? Isso melhora ou piora? Isso serve à verdade ou apenas ao interesse de alguém?

No dia a dia, vemos essa diferença o tempo todo.

Uma pessoa pode cumprir a regra e, mesmo assim, tratar mal alguém que precisa de ajuda. Um chefe pode cobrar resultados, mas fazer isso humilhando os outros. Alguém pode espalhar uma notícia sem saber se é verdadeira, só porque combina com sua opinião. Um amigo pode se calar diante de uma injustiça apenas para evitar aborrecimento.

Nesses casos, não basta perguntar se a atitude estava “correta”. É preciso perguntar: a serviço de que ela foi usada?

Porque existe gente que usa a regra para esconder injustiça. Usa palavras bonitas para disfarçar covardia. Usa aparência de legalidade para praticar abuso. Usa discurso de honra para ferir, diminuir ou atacar.

Errar é humano. Um erro pode ser corrigido. A ignorância pode ser vencida. Uma falha pode ser reparada. O problema maior começa quando a pessoa sabe que está fazendo mal e, mesmo assim, continua. Aí já não é apenas erro. É escolha.

Por isso, distinguir o certo do errado é importante, mas não basta. É preciso também escolher o bem.

Quando alguém erra na forma, pode ser orientado. Quando erra na intenção, precisa ser chamado à consciência. Mas quando erra nas duas coisas — faz o errado e ainda usa isso para prejudicar — a comunidade precisa se proteger.

Não se trata de odiar ninguém. Mas também não se deve premiar, normalizar ou entregar poder a quem transforma o erro em hábito.

Há pessoas que precisam de ajuda. Há outras que precisam de limite.

Esse tema aparece com muita força em ambientes de convivência difícil. O meio militar é um bom exemplo.

Militares discutem muito entre si. E isso não acontece por acaso. Quem passou a vida aprendendo a ter convicção, defender símbolos, cumprir missão, sustentar lealdades e falar com firmeza costuma levar a palavra muito a sério.

No quartel, havia alguns freios. Havia rosto, tom de voz, convivência, antiguidade, história comum, mesa de rancho, formatura e missão compartilhada. Mesmo quando surgiam divergências, existia algum limite imposto pela própria convivência.

Na Internet, muitos desses freios desaparecem.

A palavra sai sem contenção. A ironia vira ofensa. A discordância vira traição. O companheiro de ontem pode virar inimigo por causa de uma opinião política, de uma leitura histórica ou de uma frase mal colocada.

E há ainda um detalhe importante: muitos militares, especialmente os veteranos, não discutem apenas ideias. Discutem também memória, honra, frustração, pertencimento e decepções acumuladas. Muitas vezes, por trás de uma simples opinião, existe uma biografia inteira.

Por isso, uma discussão entre militares raramente é só uma discussão. Ela pode tocar símbolos, juramentos, amizades antigas, mágoas e lealdades quebradas. Não raro acontece, tentando defender a honra, muitos acabam jogando uma granada dentro da própria caserna.

É aí que entram a ética e a moral.

A ética aponta os princípios: honra, lealdade, verdade, justiça, coragem e responsabilidade pela palavra.

A moral aparece no jeito como esses valores são vividos na prática, em cada grupo, turma, geração ou instituição.

Quando ética e moral caminham juntas, a discordância pode ser firme, mas continua limpa. A pessoa pode criticar sem humilhar. Pode discordar sem destruir. Pode corrigir sem desprezar.

Mas quando ética e moral se separam, tudo se degrada. A coragem vira grosseria. A lealdade vira cegueira. A disciplina vira submissão. A crítica vira ressentimento.

Alguém pode até ter razão no conteúdo, mas estar errado na forma. Pode defender uma verdade usando meios baixos. Pode invocar honra para humilhar. Pode falar em lealdade para encobrir erro. Pode usar coragem como desculpa para agredir.

Quando isso acontece, a pessoa talvez esteja “certa” para seu grupo, mas já se afastou do bem.

Também pode acontecer o contrário: alguém pode estar errado na análise, mas agir com boa-fé, tentando preservar a união, evitar injustiça ou proteger alguém. Nesse caso, há erro de julgamento, mas não necessariamente má intenção.

O caso mais grave é outro: quando alguém erra na análise e ainda usa esse erro para atacar, manipular, desonrar, caluniar ou incendiar o ambiente. Aí erra duas vezes: no entendimento e na intenção.

Nesses casos, a caridade não exige ingenuidade.

Perdoar não é entregar novamente o comando. Compreender não é aceitar tudo. Ter compaixão não é eliminar consequência.

Não cabe a nós dizer que alguém não tem recuperação. Mas cabe impedir que o erro continue causando dano.

Talvez esse seja um dos grandes desafios da convivência atual: discordar sem destruir, corrigir sem desprezar, denunciar sem mentir e resistir sem se desumanizar.

A honra verdadeira não está apenas em vencer uma discussão. Está em não perder a alma durante o combate verbal.

A Internet aumentou uma velha dificuldade da vida militar: conviver com irmãos de armas que nem sempre pensam como irmãos de alma.

Muitos, tentando defender a honra, acabam jogando uma granada dentro da própria caserna.

No fim, a vida moral exige duas vigilâncias ao mesmo tempo: inteligência para distinguir o certo do errado e coragem para escolher o bem contra o mal.

O certo organiza a conduta. O bem dá sentido à conduta.

Quando o certo se separa do bem, nasce uma das piores formas de degradação: a injustiça bem escrita, o abuso bem explicado, a mentira bem apresentada e a covardia com aparência de prudência.

O certo sem o bem vira burocracia da consciência. O bem sem o certo pode virar impulso sem direção.

A grandeza está em unir os dois: clareza na mente e decência na alma.




Walter Felix CardosoJr. é Coronel da Reserva do Exército Brasileiro, bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (Infantaria_1974). Possui doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (PPGEP/UFSC_2003), com cursos residentes de especialização no Centro Willian Perry de Estudos de Defesa, da Universidade Nacional de Defesa dos EUA -  Washington/DC,  É autor de três obras: Inteligência Empresarial Estratégica: método de implantação de Inteligência Competitiva em organizações (1 Edição em Tubarão: Editora da UNISUL, 2005; com 2 Edição em Brasília, Editora da ABRAIC, 2007); Inteligência Competitiva: disciplina acadêmica (Tubarão: Editora da Unisul, 2006); e Guía de Inteligencia Empresarial: enfrentando el ambiente de la alta competencia (Buenos Aires: Editora Seguridad y Defensa, 2006). Foi Secretário de Planejamento Estratégico e Assessor da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.



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