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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O DEBOCHE REVELA A RUÍNA DE QUEM DEBOCHA


A Apropriação Ideológica do Carnaval é tão Efêmera quanto a Festa



Sintomático: escola de samba homenageia Lula, debochando do amor em família




Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro



"A inveja é o verme roedor do mérito e da glória" 
(Sir Francis Bacon)



O Carnaval  foi herdado do paganismo e introduzido no mundo cristão como uma janela catártica de festejos e euforia. Um período de quatro dias, seguidos por quarenta dias de busca pela conversão e renovação  espiritual (a quaresma),  até a Paixão e a Páscoa. 

Carnaval é o exagero, a crítica e a irreverência em festa. Um banho de bom humor coletivo. 

Mas a licenciosidade de Momo, da mesma forma que libera alegria e descontração nos foliões, também acolhe "fracos de alma" (sem paz e sem calma). Estes últimos não festejam: mimetizam a folia para extravazar seus próprios transtornos.

Essa externalização de rancores pontuou com destaque  o carnaval de 2026. Aqui e ali surgiram blocos de rua parecendo romaria, desfiles transformados em passeata, palavras de ordem travestidas de refrões e militância rasgando a fantasia.

Blocos identitários dedicados ao ultraje; família feliz  "enlatada" em fantasias de ala de escola de samba; carros alegóricos escarnecendo de presos políticos; "sermões" pregando sectarismo do alto de trios elétricos para foliões de rua... compuseram um registro do "deboche engajado versão 2026". Essas performances não se limitaram ao lúdico: buscaram agressivamente atingir a raiz moral e cultural do cidadão  brasileiro.

Porém, tão irônico e efêmero quanto o próprio carnaval, a agressividade performática revelou-se sintomática: desnudou a fraqueza dos próprios protagonistas.  E a vida seguiu o seu rumo...

Mas, façamos uma pausa para nos determos no detalhe do deboche engajado:

Deboche é recurso de quem se sente incapaz de lidar com a própria condição. Uma tentativa patética de apaziguar o desconforto interior diminuindo o outro.

A ostentação é irmã gêmea do rancor e da inveja - e o deboche serve a esse trio de ressentimentos como um óbvio mecanismo de defesa,  uma máscara para esconder conflitos internos e medos que o ressentido não reconhece ou rejeita. 

De outro lado, nosso temperamento humano é inato; integra nossa personalidade - que moldamos conforme interagimos socialmente. Essa interação é eticamente determinada pelo caráter, constituído pelo conjunto de valores, hábitos, vivências e princípios morais, formados pela educação familiar, pela religiosidade e pela compreensão do certo e do errado.

Expressamos nosso caráter por meio de nossas decisões, especialmente em situações difíceis... ou que pedem a contenção.

Pois bem, o grande alvo do deboche engajado em ritmo de samba, não foi apenas antecipar campanha eleitoral ou fazer proselitismo político partidário - quem pretendeu isso colecionou antipatias, desperdiçou tempo e  perdeu dinheiro.  

O objetivo sintomático do deboche foi atingir o caráter do cidadão brasileiro. E isso diz muito mais de quem performou, que a tentativa efêmera de causar danos. 

Esqueçam a mesquinharia performática, as transvalorações sintomáticas ou os abusos patrocinados por uma política partidária miserável.  O que devemos extrair dos atos é muito mais simbólico: o grande incômodo sentido coletivamente por uma parcela disfuncional da sociedade, ante o firme caráter do cidadão de bem. Nesse sentido, o deboche militante reduziu-se a uma tentativa barulhenta de gente desconforme, de ferir o silencioso tecido emocional do país.

Por óbvio, essa gente causou... mas não vingou.

Assim, o privilégio da boa formação e da dignidade permaneceu intacto, e o "atentado carnavalesco" de 2026, constituiu um efêmero ato falho em ritmo de samba, um reconhecimento reverso da força inabalável do bom caráter.

Nem sempre a arte une. Ela pode ser usada para aprofundar feridas. Manifestações culturais também guardam dissensos. Enfim, entender todo esse movimento é essencial para compreender o Brasil de hoje, para identificar o que vale a pena e o que deve ser descartado.

A grandeza incomoda. Mas através dela superamos o escárnio, a hipocrisia e a intolerância.  

O deboche apenas revela a ruína de quem debocha. É efêmero como fato e como ato. 

A moral, a ética, o caráter e os bons propósitos também festejam; permanecem, transcendem e dignificam... antes, durante e depois de cada carnaval.


Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista, consultor estratégico e ambiental, com serviços prestados e estudos publicados junto a organismos multilaterais como a ONU (Unicri e Pnud), Banco Mundial, IFC, Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, governo brasileiro e grandes corporações. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados e diretor da AICA - Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental, é  membro do Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política da FIESP - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Presidente da UNIÁGUA - Instituto Universidade da Água e Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa - API. É Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.




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