O Pôr do Sol no Muro: 'Go West' e o Resgate do Ethos Ocidental na Era do Vazio
![]() |
| Pet Shop Boys: Em direção ao ocidente |
Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro
Quando os sintetizadores do Pet Shop Boys ecoaram em 1993, eles não estavam apenas regravando um sucesso das pistas; estavam entoando um réquiem para o totalitarismo e um hino de boas-vindas à Sociedade Aberta de Karl Popper.
Em 'Go West', o movimento em direção ao poente deixa de ser uma rota geográfica para se tornar uma migração metafísica: a fuga do fatalismo e da filosofia do martírio — marcas de uma ortodoxia oriental sufocante — rumo ao resgate da base judaico-cristã e do logos grego que fundaram o Ocidente.
Originalmente lançada pelo Village People nos anos 1980, como um hino gay à California e sua liberação de costumes, a obra musical reformatada pela dupla Pet Shop Boys ressurgiu justamente como um hino de conciliação da rússia com o ocidente (afinal a gravação é posterior à queda da União Soviética, em 1992) - sem perder, obviamente, sua dubiedade.
O desafio atual, no entanto, é ainda mais complexo. Da mesma forma que Donald Trump conferiu um novo rumo a "YMCA" (outra música do Village People), resgatando na obra bem humorada a proposta prevalente da instituição cristã acolhedora em tempos de desalento, ressurge a possibilidade de resgatarmos rm GO WEST a forte característica geopolítica, absolutamente inserida na letra.
Porque isso? Em uma era de produções culturais vazias, marcadas pela desconstrução sistemática de valores, por ativismos de ocasião e por um niilismo identitário permissivo, resgatar o cabedal poético da fase fértil da Música Pop e da Vídeo-Art, não é apenas um exercício de nostalgia, mas um ato de resistência contra a barbárie. É a reafirmação de que o Ocidente, longe de ser um conceito falido, permanece como o único horizonte onde o indivíduo é soberano e a liberdade é o ar que se respira.
A produção musical das décadas de 80 e 90 não foi apenas um fenômeno de estética e sintetizadores; foi a crônica sonora de uma das transições geopolíticas mais férteis da história moderna.
A música pop mesclou ritmos com a tecnologia digital num mundo em plena transição estética. A arte musical transitou entre o pré e o pós-queda do Muro de Berlim, entre a decadência novaiorquina dos anos 1970 para o resgate da Lei e a Ordem, no temor da Guerra Fria para a supremacia do mundo livre. O mundo testemunhou, nessa época, o auge da tensão entre dois modelos civilizatórios e é nesse vácuo de certezas que a regravação de Go West pelos Pet Shop Boys, em 1993, transcendeu as pistas de dança para se tornar um manifesto metafísico.
Enquanto a música contemporânea do século XXI mergulha em uma desconstrução sistemática de valores, envolta em um niilismo identitário e numa vacuidade poética, o resgate da obra Go West permite um reposicionamento crítico do que significa, de fato, "ir para o Oeste". Livrar-se do sombrio "Eixo do Mal" para o livre debate da América Grande Outra Vez, e da Europa em busca do próprio resgate cultural.
O Logos contra o Fatalismo
A "Sociedade Aberta" é aquela que preserva a liberdade individual através do pensamento crítico e da proteção das instituições contra o autoritarismo. Popper, no entanto, alerta para um paradoxo: se formos infinitamente tolerantes com os intolerantes, os intolerantes destruirão os tolerantes e a tolerância com eles.
"Go West", nesse sentido, é a marcha em direção a essa Sociedade Aberta. É o movimento de quem foge de sistemas fechados (dogmáticos/fatais) para um sistema onde o erro pode ser corrigido pelo debate, não pelo martírio.
Essa visão popperiana forma coreografia com Nietzsche e seu abismo niilista polido: o alerta constante da liberdade.
Nietzsche , com seu transvalorar de todos os valores, nos alerta que, ao derrubarmos pilares tradicionais (nossa base judaico-cristã), caímos no niilismo - um vazio de sentido onde "tudo é permitido", desde que sirva ao poder de um grupo, e o que não agrada... é recebido como "ataque".
O "Politicamente Correto", como Novo Dogma, não busca a liberdade popperiana. Pelo contrário, impõe uma nova ortodoxia ocidental. Em vez da excelência e da verdade, premia-se o vitimismo e o cancelamento (uma forma moderna de martírio social).
O risco é que o Ocidente, por um complexo de culpa niilista, torne-se permissivo com comportamentos que destruam os próprios pilares que o tornaram um refúgio para a livre expressão. "Go West", nesse sentido, seguiria para onde a liberdade se põe.
No âmago da letra, o "Oeste" deixa de ser ponto cardeal para se tornar o território do Logos.
A jornada proposta pela canção é uma fuga do fatalismo oriental - do "estava escrito" (maktub), da submissão a um desígnio superior imutável, que anula o valor da vontade humana e retira do indivíduo a responsabilidade do caos que o envolve ou que ele mesmo provoca, nessa submissão.
"Go West" é uma retomada em direção à base ancestral judaico-cristã-ocidental, à força do livre arbítrio, da prevalência da força da vontade, do contrato social como base do Estado, da responsabilidade a pessoa pelos seus atos, da livre iniciativa como força motriz da sociedade.
Onde o Oriente - próximo e extremo, se consolida pela ortodoxia e o comprometimento coletivo compulsório, o Ocidente oferece o livre-arbítrio. É assim que "Go West" aplica a prática da "Sociedade Aberta" de Karl Popper, onde o amor não é uma "permissão" mas, sim, uma expressão - e o ocidente torna-se um espaço onde as instituições protegem a individualidade e o futuro não é um destino trágico imutável, mas sim uma construção deliberada.
"Go West" como Hino Libertário (A Síntese)
Nessa interpretação, a música deixa de ser sobre "ir para qualquer lugar no Ocidente" e passa a ser sobre defender a essência do Ocidente.
A letra "We'll go our way / We'll leave some day" ganha novo sentido: é uma decisão soberana de seguir o próprio caminho, de recusar-se a ser subjugado tanto pela bota do ditador oriental quanto pelo "tribunal de exceção" da patrulha ideológica ocidental. O "Oeste" torna-se a fronteira final da soberania individual. O lugar onde a base moral ocidental cultiva a empatia, libera o amor, garante a dignidade da pessoa e preserva o direito de discordar.
Se o Oriente sucumbe ao fatalismo do martírio, o Ocidente flerta com o abismo do niilismo identitário. 'Go West', portanto, deve ser lido como um chamado à Sociedade Aberta: um movimento de resistência que rejeita a barbárie externa sem se curvar à tirania intelectual interna. É a busca por uma liberdade que não é mera permissividade, mas a coragem nietzschiana de afirmar a vida contra todos os dogmatismos.
A Vida contra o Martírio
Ao articularmos essa visão geopolítica, confrontamos a crescente filosofia do martírio que hoje emana de regimes teocráticos e ditaduras no Extremo Oriente e no Oriente Médio. Nessas regiões, a anulação do "eu" em prol de uma causa absoluta é glorificada como virtude suprema.
Em contrapartida, a ressignificação de Go West celebra a afirmação da vida. Quando a letra clama "There where the air is free / We'll be what we want to be", ela não está pregando um hedonismo vazio, mas a soberania da existência sobre a pulsão de morte das tiranias. É a resistência do indivíduo contra a barbárie instalada na ditadura dos costumes, na censura de expressão, na intolerãncia e no rancor vitimista; no antisemitismo, no ódio militante aos valores ocidentais, no louvor ao terrorismo e nas sombras do fundamentalismo.
O Risco do Niilismo Interno
Este artigo não poderia ignorar o inimigo interno.
O ocidente atual flerta perigosamente com o abismo do "politicamente correto" e das militâncias identitárias liberticidas.
Sob o pretexto da virtude, essas forças operam uma permissividade que corrói os próprios pilares que tornam o Ocidente um refúgio.
Como já dito, o risco é que o "Oeste", em sua busca por inclusão, acabe por tolerar aqueles que desejam destruir a tolerância, caindo no paradoxo popperiano.
"Go West" deve, portanto, ser resgatado como um hino libertário: uma defesa da liberdade que não se confunde com o niilismo, mas que se ancora na coragem de sustentar nossos valores fundantes.
Conclusão: A Esperança como Horizonte
Encerrar esta análise exige de nós uma nota de esperança ativa.
A capacidade de reinterpretar uma obra musical para além de sua orientação original é, por si só, um exercício de liberdade ocidental.
Resgatar o cabedal poético de uma fase em que o Pop tinha conteúdo e atenção geopolítica é um ato de rearmamento moral.
O "Oeste" que buscamos não é um lugar no mapa, mas um estado de espírito que recusa o silenciamento e o dogma. Enquanto houver quem caminhe em direção ao pôr do sol com a consciência de que a razão e a dignidade humana são conquistas a serem defendidas, o sol nunca se porá sobre o ideal da liberdade.
Go West é o nosso chamado: para longe da barbárie, para dentro da civilização.
Assista ao vídeo:
https://www.letras.mus.br/pet-shop-boys/30547/traducao.html
GO WEST (Vamos para o Oeste) - Letra:
Composição: Bounty Harry, Moralli Jacques, Chris Lowe, Neil Tennant.
(Juntos) nós seguiremos nosso caminho
(Together) we will go our way
(Juntos) nós partiremos algum dia
(Together) we will leave someday
(Juntos) nós faremos nossos planos
(Together) we will make our plans
(Juntos) dizer adeus a todos os nossos amigos
(Together) tell all our friends goodbye
(Juntos) nós começaremos uma vida nova
(Together) we will start life new
(Juntos) é isso que nós faremos
(Together) this is what we'll do
(Vá para o oeste) a vida é pacífica lá
(Go west) life is peaceful there
(Vá para o oeste) ao ar livre
(Go west) in the open air
(Vá para o oeste) onde o céu é azul
(Go west) where the skies are blue
(Vá para o oeste) é isso que nós vamos fazer
(Go west) this is what we're gonna do
Vá para o oeste
Go west
É isso que nós vamos fazer
This is what we're gonna do
Vá para o oeste
Go west
(Juntos) nós amaremos a praia
(Together) we will love the beach
(Juntos) nós aprenderemos e ensinaremos
(Together) we will learn and teach
(Juntos) mudar nosso ritmo de vida
(Together) change our pace of life
(Juntos) nós trabalharemos e nos esforçaremos
(Together) we will work and strive
(Eu te amo) eu sei que você me ama
(I love you) I know you love me
(Eu te quero) como eu poderia discordar?
(I want you) how could I disagree?
(E é por isso que) eu não faço nenhum protesto
(So that's why) I make no protest
(Quando você diz) que fará o resto
(When you say) you will do the rest
(Vá para o oeste) a vida é pacífica lá
(Go west) life is peaceful there
(Vá para o oeste) ao ar livre
(Go west) in the open air
(Vá para o oeste) meu bem, você e eu
(Go west) baby, you and me
(Vá para o oeste) este é o nosso destino
(Go west) this is our destiny
(Vá para o oeste) Sol no inverno
(Go west) Sun in winter time
(Vá para o oeste) nós ficaremos bem
(Go west) we will do just fine
(Vá para o oeste) onde o céu é azul
(Go west) where the skies are blue
(Vá para o oeste, é isso que nós vamos fazer)
(Go west, this is what we're gonna do)
Lá onde o ar é livre
There where the air is free
Nós seremos (nós seremos) o que quisermos ser
We'll be (we'll be) what we want to be
Agora, se nos posicionarmos
Now if we make a stand
Nós encontraremos (nós encontraremos) nossa terra prometida
We'll find (we'll find) our promised land
(Eu sei que) existem muitas maneiras
(I know that) there are many ways
(De viver lá) sob o Sol ou à sombra
(To live there) in the Sun or shades
(Juntos) nós encontraremos um lugar
(Together) we will find a place
(Para nos estabelecer) onde há tanto espaço
(To settle) where there's so much space
(Sem a pressa) e o ritmo do leste
(Without rush) and the pace back east
(A correria) a agitação apenas para se alimentar
(The hustling) rustling just to feed
(Eu sei que estou) pronto para partir também
(I know I'm) ready to leave too
(Então é isso que) nós vamos fazer
(So that's what) we are gonna do
(O que nós vamos fazer é ir para o oeste) a vida é pacífica lá
(What we're gonna do is go west) life is peaceful there
(Vá para o oeste) lá ao ar livre
(Go west) there in the open air
(Vá para o oeste) onde o céu é azul
(Go west) where the skies are blue
(Vá para o oeste) é isso que nós vamos fazer
(Go west) this is what we're gonna do
(A vida é pacífica lá)
(Life is peaceful there)
Vá para o oeste (ao ar livre)
Go west (in the open air)
Vá para o oeste (meu bem, você e eu)
Go west (baby, you and me)
Vá para o oeste (este é o nosso destino)
Go west (this is our destiny)
(Vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá)
(Come on, come on, come on, come on)
(Vá para o oeste) Sol no inverno
(Go west) Sun in winter time
(Vá para o oeste) nós nos sentiremos bem (vá para o oeste, nos sentiremos, vá para o oeste)
(Go west) we will feel just fine (go west, we will feel, go west)
(Vá para o oeste) onde o céu é azul (o céu é azul)
(Go west) where the skies are blue (skies are are blue)
(Vá para o oeste) é isso que nós vamos fazer (eu e você)
(Go west) this is what we're gonna do (me and you)
(Vamos lá, vamos lá, vamos lá, vamos lá) (vá para o oeste)
(Come on, come on, come on, come on) (go west)
(Vá para o oeste) (ah, ah, é)
(Go west) (oh, oh, yeah)
(Vá para o oeste) (ah, ah, é)
(Go west) (oh, oh, yeah)
(Vá para o oeste) (ah, ah, é)
(Go west) (oh, oh, yeah)
(Vá para o oeste) (ah, ah, é)
(Go west) (oh, oh, yeah)
(Vá para o oeste) (você e eu, você e eu)
(Go west) (you and me, you and me
Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista, consultor estratégico e ambiental, com serviços prestados e estudos publicados junto a organismos multilaterais como a ONU (UNICRI - United Nations Interregional Crime Research Institute e UNDP - United Nations Development Program), Banco Mundial, IFC, Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, governo brasileiro e grandes corporações. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados e diretor da AICA - Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental, é membro do Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política da FIESP - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Presidente da UNIÁGUA - Instituto Universidade da Água e Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa - API. É Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seja membro do Blog!. Seus comentários e críticas são importantes. Diga quem é você e, se puder, registre seu e-mail. Termos ofensivos e agressões não serão admitidos. Obrigado.