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segunda-feira, 2 de março de 2026

ELEIÇÕES NO BRASIL - A DIREITA À BEIRA DA CAPTURA

 Como o Sistema Pode Engolir Mais um Projeto de Renovação


o mecanismo devora bandeiras e sonhos...



Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro


"Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros."
Paulo de Tarso 
Filipenses 2:3-4



O sonho do cidadão comum diante do moedor de carne institucional


O brasileiro médio ainda acredita que a política pode ser um instrumento de transformação. Mas essa esperança corre o risco de ser triturada pelo mesmo mecanismo que há décadas recicla caciques, vícios e estruturas impermeáveis. 

A direita ressurgiu no ocidente e também no oriente, restaurando os valores morais, a ordem e o mérito como promessa de ruptura. A verdadeira direita rejeitou a ideologia de gênero, desmascarou o discurso militante da "emergência climática", combateu a tolerância - confundida com permissividade a posturas intolerantes e atividades criminosas, denunciou a censura e as restrições à liberdade de expressão, ao mérito e à livre iniciativa.

Líderes como Trump, Meloni, Milei, Bukele, Orban e tantos outros, estão redesenhando a geopolítica no planeta sem ceder espaço ao establishment globalista-progressista.

Porém, no Brasil, as lideranças posicionadas à direita parecem querer se aproximar perigosamente das engrenagens que historicamente engoliram qualquer tentativa de renovação. 

O risco é claro: o sistema absorve, neutraliza e devolve uma versão domesticada de tudo o que parecia insurgente.

Tal qual Saturno devorando seus filhos na mitologia, o establishment procura devorar a nova direita no Brasil, eliminando o risco de ver-se varrido pela onda de mudanças que já se observa no ocidente.  Cabe às lideranças evitar que isso ocorra. 


A “tucanização” da direita: captura em tempo real

O PSDB, que sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas, produziu dois excelentes governos (no campo federal e no Estado de São Paulo, entre 1995 e 1998), introduzindo firmes reformas na estrutura e funcionamento da economia e da máquina do Estado. 

Porém, o PSDB é fruto dileto da "elite progressista" tupiniquim. Assim, nos anos subsequentes, a estrutura tucana revelou-se completamente submissa a um punhado de vaidosos cujo ego suplantava o interesse público - uma máquina de moer lideranças e destruir sonhos que entregou o país "de bandeja" para o pesadelo esquerdista e populista do "Socialismo do Século XXI". 

O esquema de negação sistemática do que estava à vista de todos, somado à cooptação vergonhosa dos meios de comunicação, permitiu que o brasileiro, durante o ilusionismo tucano, sofresse com o desenvolvimento do crime organizado (nunca informado ao público), com a tomada de poder do Foro de São Paulo (tido e havido como "teoria da conspiração"), com a corrupção em escala (ignorada e arquivada por tucanos, em benefício também dos petistas) e com a peste identitária (um combate cultural surdo a toda a estrutura judaico-cristã da sociedade, ao mérito e ao conservadorismo nas instituições de Estado). 

Descobertos, desmoralizados e destruídos em sucessivas eleições, os tucanos sobreviveram nos escaninhos da burocracia de Estado, nas redações da imprensa mainstream e no sistema financeiro abutre. Dali, trataram e ainda tratam de fagocitar lideranças partidárias e governos desprovidos de ideias e quadros, oferecendo-lhes "prestigio social" em clubes e entidades lobistas, premiação e bajulação nos nichos acadêmicos e "entrada gratis" nas panelinhas do café society paulista (como a dos "faria limers").

São Paulo, de fato,  é o laboratório mais explícito dessa captura silenciosa.  A aproximação entre o Senador Flávio Bolsonaro,  pré candidato presidencial, o Governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes, cujo entorno compõe um ecossistema  tucano completo, travestido de MDB, apresenta  um enorme risco de repetição de "novelas de sessão da tarde" - um movimento de sobrevivência das velhas estruturas. 

A “tucanada” percebeu a oportunidade de se reinstalar no centro do poder sob o guarda-chuva da direita emergente. E que ninguém se engane: tudo fará para que tudo permaneça como está. 

A participação, já anunciada a boca pequena nos palácios do Morumbi e Anhangabaú, desses grupos, na elaboração de um “programa de governo”  bolsonarista, não representa apenas "convergência ideológica", mas uma "ocupação estratégica". 

O risco dessa turma chamar Trump de "negacionista" é concreto (sei disso por experiência própria).

Todos os sinais de alerta devem acender para a aguerrida e corajosa direita brasileira: a velha política está  se infiltrando no novo discurso. 

Ao abrir espaço para essas forças - nitidamente vinculadas ao establishment, a nova direita brasileira importa as práticas, os métodos e as "prioridades" que sempre denunciou e condenou. 

O discurso de ruptura começa a ceder ao "pragmatismo de cúpula" e, que ninguém se engane, o eleitor percebe quando isso acontece.



O hiperpartidarismo como doença crônica: partidos-corporação e o Judiciário guardião do cofre

O Brasil vive um fenômeno singular: partidos que não são partidos, mas corporações permanentes, sustentadas por dinheiro público e protegidas por um arranjo jurídico que impede a renovação de quadros. 

Essa é a característica mais grave do hiperpartidarismo, agravado no Brasil pela existência da "jabuticaba" constitucional de um Judiciário especializado que, na prática, controla a chave do cofre partidário.

A Justiça Eleitoral convive há décadas com legendas que mantêm diretórios provisórios eternos, sem eleições internas regulares, sem  diretórios regularizados por mandatos garantidos em eleições e convenções de base e, sem renovação nas cúpulas. 

Como diretórios eleitos dificultariam arranjos de cúpula, a solução encontrada pelo sistema foi manter tudo provisório e, portanto, manipulável. Enquanto isso, o fluxo de recursos públicos permanece intacto e sem qualquer compromisso com o eleitorado afiliado.

Esse modelo não é acidente: é método. Ele garante que o establishment permaneça entranhado no intestino da política, independentemente de quem vença eleições. E qualquer movimento que se aproxime dessas estruturas corre o risco de ser contaminado por práticas que anulam sua capacidade de renovação.

Daí porque os movimentos de conchavos e alianças dissimulam o processo de fagocitose de movimentos disruptivos e lideranças promissoras. 

A nova direita, hoje, corre enorme risco de ver-se anulada por esse processo. 



A esquerda como engrenagem funcional do sistema

Sejamos claros, a esquerda brasileira abandonou há muito qualquer escrúpulo moral ou coerência programática. Tornou-se um conglomerado de agentes que operam segundo lógicas de poder, não de princípios. 

Não por outro motivo, a esquerda tupiniquim é algo funcional ao establishment financeiro e  globalista-progressista, justamente por sua flexibilidade e disposição para negociar qualquer agenda desde que mantenha acesso ao sistema.

Lula, com todo o desgaste ocorrente no seu governo, tem absoluta clareza quanto a isso - e há décadas maneja com sucesso esse processo de simbiose sinistra.

Independentemente da avaliação moral, o ponto estrutural permanece: um sistema partidário capturado por cúpulas tende a favorecer grupos que operam sem amarras internas. 

Por isso a preocupação que a nova direita, nesse processo de "somar para não dividir", visando as eleições de 2026, corra risco de perder sua identidade e sua capacidade de propor e implementar reformas ao se aproximar das franjas do processo simbiótico globalista-progressista.

Discursos não resolvem, se o cerne do esquema resultar na mesma salada mista. 



O teatro político e as “cordinhas” que separam o povo do poder

A política brasileira funciona como um teatro de acesso restrito. Cerimônias, protocolos e cordões de isolamento separam dirigentes e operadores do cidadão comum. O povo sempre assiste da arquibancada, enquanto acordos são costurados nos bastidores, longe de qualquer escrutínio. 

Nesse ambiente em que "uns" são segregados de "outros"... projetos de renovação são facilmente engolidos por vaidades pessoais, disputas internas e interesses corporativos.

O risco é a direita se aproximar desse torvelinho. Se ocorrer o conchavo, como parece estar ocorrendo, poderemos perder exatamente aquilo que se tornou relevante para milhões de brasileiros: a promessa de romper com o sistema.



O ponto de ruptura: vencer sem se vender

A direita brasileira enfrenta um dilema brutal: para vencer, precisa ampliar alianças; para manter coerência, precisa evitar ser absorvida por estruturas que anulam qualquer projeto de mudança. 

Se ceder demais, perde identidade. Se resistir demais, perde viabilidade eleitoral. Se não resolver essa equação, será tragada — como tantos antes.

O que está em jogo não é apenas uma eleição, mas a possibilidade de romper com um sistema que se especializou em neutralizar qualquer tentativa de transformação.

Olavo de Carvalho sempre denunciou a superficialidade da direita brasileira e desunião por vaidade de seus quadros. Ele pregava que o verdadeiro conservadorismo exige constância, absolutamente ausente na política brasileira.

Partindo da visão do eleitorado como algo efêmero, como de resto o é em qualquer democracia, Olavo identificava a necessidade da direita ganhar densidade e coerência teórica e programática. Aliás, para ele,  a coerência se baseia num "núcleo de atitudes políticas que devem permanecer constantes ao longo da vida". No caso do conservadorismo, essa coerência se vincula afetivamente "às coisas que amamos e devemos proteger contra a decadência" - como leciona Roger Scruton.

Como dizia Winston Churchill,  “todas as grandes coisas são simples e  se expressam na liberdade, justiça, honra, dever, piedade e esperança". Se assim é, absolutamente nada disso extrairemos desse processo de imersão da candidatura de Flávio Bolsonaro no ambiente pantanoso do establishment - lotado de seres miméticos e predadores camuflados. 

Hora de repensar rumos e resgatar valores... antes que se percam no meio do caminho. 


Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista, consultor estratégico e ambiental, com serviços prestados e estudos publicados junto a organismos multilaterais como a ONU (Unicri e Pnud), Banco Mundial, IFC, Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, governo brasileiro e grandes corporações. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados e diretor da AICA - Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental, é  membro do Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política da FIESP - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Presidente da UNIÁGUA - Instituto Universidade da Água e Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa - API. É Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.







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