Páginas

sexta-feira, 13 de março de 2026

A ENGRENAGEM OCULTA: GLOBALISMO, SISTEMA FINANCEIRO E GOVERNOS DE ESQUERDA

 ENTENDA POR QUE O SISTEMA FINANCEIRO GLOBAL PREFERE GOVERNOS DE ESQUERDA E CENTRO‑ESQUERDA — UMA ANÁLISE HISTÓRICA E ECONÔMICA



Imagem: AFPP-IA



“Toda a história da economia moderna brasileira sob governos progressistas não passa de um ‘voo de galinha vermelha’. Bate asas, faz barulho e sobe somente dois palmos, tudo cuidadosamente articulado pelo sistema financeiro global.”

Marilene Nunes


 

Por Marilene Nunes (*)


 

Resumo


O texto analisa por que o sistema financeiro global tende a operar com maior conforto e, em vários casos, preferência sob governos de esquerda e centro‑esquerda. A argumentação parte do papel dos Bancos Centrais, especialmente do controle da taxa de juros, destacando que a política monetária não é neutra: ela redistribui renda de baixo para cima.


A autora sustenta que governos de esquerda e centro‑esquerda costumam adotar expansão fiscal e aumento do gasto público para o desenvolvimento de programas sociais sem planejamento econômico, além da oferta de subsídios com maior intervenção estatal. Esse conjunto de fatores eleva a dívida pública e, consequentemente, a emissão de títulos públicos e de ativos altamente rentáveis para o mercado financeiro.


O texto também afirma que, quando políticas sociais pressionam a demanda, ocorre inflação, levando os Bancos Centrais a elevar os juros, o que significa proteção aos detentores de títulos e penalização para quem precisa de crédito.


Exemplos internacionais — como os Estados Unidos sob governos democratas, o Reino Unido sob o trabalhismo, o Chile no período da “Concertación”, a China pós‑2008 e a França no governo Hollande — reforçam o argumento de que o mercado financeiro global valoriza ambientes com previsibilidade institucional, dívida crescente, juros elevados e emissão contínua de títulos.


No caso brasileiro, o texto descreve um padrão observado desde os anos 2000: expansão fiscal, crescimento do crédito, inflação recorrente, ciclos de juros altos e aumento da dívida pública, criando um ambiente considerado ideal para a rentabilidade do sistema financeiro global e desfavorável ao desempenho econômico dos países que adotam esse paradigma.


Palavras‑chave: Banco Central, Sistema Financeiro Global, Governos de Esquerda e Centro‑Esquerda, Taxas de Juros, Inflação, Dívida Pública.

 


O Banco Central como instrumento de disciplinamento político

 


Para compreender por que o sistema financeiro tende a ser altamente lucrativo em governos de esquerda e centro‑esquerda, é essencial entender o funcionamento de uma das principais atribuições dos Bancos Centrais no mundo: o controle da taxa de juros. No Brasil, essa taxa é chamada de Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) e corresponde à taxa básica de juros da economia. Ela serve como referência para praticamente todas as demais taxas do país, desde empréstimos e financiamentos até investimentos e o rendimento dos títulos públicos. Por ser o principal parâmetro do custo do dinheiro no Brasil, qualquer alteração na Selic repercute em toda a economia.


A definição dessa taxa é responsabilidade do Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central que se reúne periodicamente para avaliar o cenário econômico e decidir se a taxa deve subir, cair ou permanecer estável.


Para que serve a taxa Selic?


A Selic cumpre duas funções centrais:


1. Controlar a inflação. É o principal instrumento do Banco Central para manter os preços sob controle. Quando a inflação aumenta, a elevação da Selic reduz o consumo e o crédito, diminuindo a pressão sobre os preços.


2. Guiar o custo do crédito. A Selic influencia diretamente o custo de empréstimos e financiamentos. Quando sobe, o crédito fica mais caro; quando cai, tende a se tornar mais acessível, estimulando investimentos e consumo.


Essas duas atribuições permitem que o Banco Central exerça controle político sobre as ações dos governos, mantendo‑os sob vigilância e dentro dos limites dos interesses do capital financeiro privado.


Para compreender profundamente essas funções, é preciso responder a uma pergunta fundamental: por que o Banco Central tem o poder de definir a taxa de juros? Conhecer a origem dessa instituição ao longo da história ajuda a entender sua função atual.


 

Origem histórica dos Bancos Centrais: controle dos juros e poder


 

O título de primeiro Banco Central do mundo pertence ao Riksbank, da Suécia, fundado em 1668. Sua criação ocorreu após o colapso do banco privado Stockholm Banco, que havia emitido notas em excesso e acabou falindo. O governo sueco assumiu o controle e instituiu uma entidade estatal para emitir moeda com maior segurança, financiar o governo e estabilizar o sistema financeiro, características centrais de um Banco Central moderno. Naquele período, a Suécia era governada por uma monarquia quase absolutista, e a maioria dos bancos era estatal, operando fora do sistema de crédito privado.


Nos séculos XVIII e XIX, o Riksbank consolidou‑se como emissor de moeda e regulador do crédito. Em 1904, obteve o monopólio formal da emissão de notas. Entre as décadas de 1930 e 1970, passou a atuar mais diretamente na política monetária, influenciando juros e crédito. Já integrado ao sistema financeiro usurário global, a partir de 1999, tornou‑se oficialmente independente do governo e passou a operar com mandato explícito de manter a estabilidade de preços.


Pouco tempo depois da fundação do Banco Central sueco, foi criado o Banco da Inglaterra, que se tornou o modelo que influenciou o mundo. O Bank of England de capital privado surgiu em 1694 com o propósito de financiar o governo britânico, que precisava de recursos para guerras. Em troca, recebeu privilégios que o transformaram gradualmente em uma instituição com características de Banco Central.


No século XVIII, tornou-se o principal emissor de notas no Reino Unido. Em 1844, ganhou o monopólio de emissão de moeda, marco essencial para um Banco Central moderno. Entre 1931 e 1946, assumiu funções de política monetária. Em 1997, ganhou independência operacional para definir a taxa de juros. Hoje, é um dos Bancos Centrais mais influentes do mundo, referência para o Federal Reserve dos EUA e para diversos outros países.


Embora formalmente apresentados como instituições técnicas e neutras, os Bancos Centrais operam historicamente como guardiões dos interesses do sistema financeiro privado usurário. A sua prioridade real não é o bem‑estar da população, mas a preservação da rentabilidade dos bancos e do capital financeiro. A retórica da “estabilidade econômica” funciona como um véu que encobre a defesa permanente dos credores, mesmo quando isso implica sacrificar emprego, renda e investimento público.


O controle da taxa de juros é o instrumento central dessa lógica. Ao manipular os juros, o Banco Central regula o custo do dinheiro e, assim, determina quem ganha e quem perde na economia. Juros altos significam proteção aos detentores de títulos e penalização para quem depende de crédito: empresas, trabalhadores e o próprio Estado. Quando o governo decide ampliar investimentos sociais, expandir serviços públicos ou adotar políticas anticíclicas, a reação costuma ser imediata: elevação dos juros sob o argumento de “combater a inflação”. Na prática, trata‑se de um mecanismo de disciplinamento político que limita a capacidade do governo de atuar em favor da maioria.


 A política monetária, portanto, está longe de ser neutra: ela atua como um mecanismo de redistribuição de renda, geralmente transferindo recursos das camadas mais pobres para as mais ricas, e os governos de esquerda e centro-esquerda são parte importante desse mecanismo na proporção que suas políticas sociais populistas não têm projeto econômico que equilibre e sustente as políticas compensatórias de modo a não recorrer ao endividamento do Estado. Assim, o sistema financeiro global opera com mais conforto sob governos de esquerda e centro-esquerda. A ideia pode parecer contraintuitiva, mas a história econômica mostra que o mercado financeiro não tem preferência ideológica — tem preferência por ambientes que garantam fluxo constante de capital, previsibilidade institucional e políticas que ampliem os ganhos do capital financeiro. Os exemplos históricos e internacionais mostram a relação positiva entre capital financeiro e governos de esquerda e centro-esquerda em decorrência de cinco fatores elencados a seguir:


1. A lógica fiscal da esquerda: mais Estado, mais dívida, mais títulos


Governos de esquerda tendem a adotar políticas de expansão fiscal, com aumento de gastos pessoais dos agentes da administração pública e produzir políticas sociais compensatórias, o que leva a investimentos públicos sem planejamento, por meio de programas de transferência de renda cuja consequência é aumentar o consumo sem elevar a produtividade da economia. Soma‑se a isso a concessão de subsídios e incentivos estatais, baseada no aumento de impostos para os produtores, gerando desemprego e a falência de pequenas e médias empresas.


Essas políticas, embora voltadas ao “bem‑estar social”, aumentam a necessidade de financiamento do Estado, o que leva à emissão contínua de títulos públicos, o ativo mais desejado pelo sistema financeiro global. Exemplo internacional: Estados Unidos sob governos democratas. Historicamente, administrações democratas nos EUA — Bill Clinton, Barack Obama e Joe Biden — adotaram políticas de expansão fiscal em momentos de crise ou estagnação. O resultado: aumento da dívida pública, maior oferta de títulos do Tesouro, forte demanda do mercado financeiro por esses papéis e a manutenção dos EUA como o maior emissor de títulos soberanos do planeta.


O mercado financeiro global depende desses títulos para lastrear fundos, reservas e operações de hedge. Para quem não sabe, operações de hedge (ou proteção) são estratégias financeiras utilizadas por investidores e empresas para reduzir o risco de perdas em ativos causadas pela volatilidade de preços, taxas de juros ou câmbio. Funcionam como um “seguro” que trava valores futuros, protegendo a margem de lucro e garantindo previsibilidade, sendo muito comuns em operações com derivativos.

 


2. Inflação e juros: quando o social pressiona o monetário


Políticas de estímulo social sem investimentos para o crescimento econômico tendem a aquecer a demanda interna de consumo artificialmente. Em muitos casos, isso pressiona a inflação. E, quando a inflação sobe, os bancos centrais elevam os juros. Para a população, juros altos são um problema; para o sistema financeiro, são uma oportunidade.


Um exemplo histórico disso ocorreu no Reino Unido nos anos 1970 e no início dos anos 2000. Na década de 1970, governos trabalhistas ampliaram gastos sociais, o que contribuiu para uma inflação elevada. O Banco da Inglaterra respondeu com juros altos, beneficiando bancos e fundos. No início dos anos 2000, sob o governo de Tony Blair (também trabalhista), houve expansão de programas sociais sem planejamento econômico e, consequentemente, aumento da dívida, novamente fortalecendo o mercado de títulos.


3. Estabilidade institucional: a esquerda raramente rompe com o sistema


O sistema financeiro global teme rupturas. Governos de esquerda e centro-esquerda, ao contrário do estereótipo, costumam cumprir contratos, manter diálogo com organismos internacionais, preservar a autonomia do Banco Central e evitar choques institucionais. Essa previsibilidade é valiosa para o sistema financeiro global. Um exemplo histórico é o Chile sob a “Concertación” nos pós‑governo militar (1990–2010).


Após o fim do governo militar, o Chile foi governado por coalizões de centro‑esquerda por 20 anos. O país passou por uma transformação profunda nesse período, tornando‑se quase um “laboratório” de políticas econômicas e sociais na América Latina, com avanços significativos, mas também tensões que explodiriam décadas depois. Durante esses anos, manteve políticas fiscais responsáveis, ampliou programas sociais, atraiu investimentos estrangeiros e se consolidou como um dos mercados mais estáveis da região. O sistema financeiro internacional elogiava o país justamente pela combinação de políticas sociais com estabilidade macroeconômica.


Os governos de centro‑esquerda, que permaneceram no poder por duas décadas, herdaram uma economia já bastante liberalizada. Em vez de romper com o modelo, mantiveram sua base de mercado, introduzindo ajustes sociais progressivos que possibilitaram, temporariamente, a estabilidade. As principais características desse governo de coalizão incluíam: ampla abertura comercial, sistema previdenciário privado, forte participação do setor privado em saúde e educação, e um Estado mais regulador do que provedor. Essa continuidade conferiu ao Chile uma imagem de estabilidade institucional e previsibilidade econômica que só adiou os problemas que eclodiram 20 depois.


 

4. Programas sociais ampliam o consumo artificialmente — e o mercado adora consumo


Quando a população mais pobre tem renda, ela consome. Porém, renda decorrente de programas sociais por transferência, sem um projeto de expansão tecnológica e aumento da produtividade econômica, aquece o PIB (Produto Interno Bruto), melhora indicadores de crédito, fortalece empresas listadas na bolsa, aumenta a arrecadação e cria um ciclo de crescimento curto, que implode no médio prazo.


Um exemplo internacional é a China pós‑2008. Embora não seja uma democracia ocidental, o país adotou políticas de forte expansão estatal de caráter social após a crise de 2008: trilhões em investimentos públicos, crédito abundante e estímulo ao consumo interno. O resultado foi um boom econômico que beneficiou bancos globais, fundos de investimento e multinacionais, mas teve duração limitada.


Após a crise financeira de 2008, a China adotou políticas agressivas de estímulo econômico e ampliou sua presença no comércio internacional. Esse período marcou uma rápida ascensão geopolítica, acompanhada pela reconfiguração das relações de poder entre Oriente e Ocidente. Os principais movimentos incluíram: pacotes de estímulo massivos que impulsionaram infraestrutura, crédito e urbanização; a expansão do comércio internacional, com a China se consolidando como principal parceira de dezenas de países; e o fortalecimento do chamado “Consenso de Beijing”, que oferecia um modelo alternativo ao que a esquerda denomina, de forma equivocada, “neoliberalismo ocidental”, mas que, na verdade, corresponde ao liberalismo cumprindo sua função. Esse modelo foi baseado em forte intervenção estatal e pragmatismo econômico.


Nos últimos anos, a China enfrenta uma nova fase, mais complexa e menos focada apenas em crescimento acelerado. A chamada era Xi Jinping começa oficialmente em 2012, quando Xi assume a liderança do Partido Comunista da China (PCC). Esse marco é amplamente reconhecido como o início de um novo período político e econômico na história recente do país, caracterizado principalmente pelo rompimento da China com o globalismo. As tendências recentes incluem desaceleração econômica e crescimento mais moderado, refletindo a maturidade econômica e as tensões globais. A classe média continua crescendo, mas enfrenta aumento do custo de vida, pressões no mercado de trabalho e desigualdades regionais persistentes.


O boom chinês pós‑2008, impulsionado por estímulos internos e pela força de suas reservas, ajudou o sistema financeiro global ao sustentar a demanda mundial quando o Ocidente estava em recessão, oferecer liquidez e confiança aos mercados, investir seletivamente em instituições financeiras estrangeiras e manter cadeias produtivas e comerciais funcionando.


A China não “salvou” o sistema financeiro global, mas certamente atuou como um amortecedor importante em um momento de fragilidade extrema, contribuindo para a estabilidade do sistema.


5.A esquerda raramente faz reformas impopulares, e o mercado financeiro agradece


Reformas estruturais, como cortes de gastos, redução do tamanho do Estado e ajustes fiscais profundos, são politicamente custosas. Governos de esquerda, por sua base social, tendem a evitá‑las. Isso significa dívida crescente, necessidade constante de financiamento e emissão contínua de títulos públicos. Para o sistema financeiro, esse é um ambiente ideal.


Um exemplo é a França sob o governo socialista de François Hollande (2012–2017). Apesar do discurso progressista, Hollande evitou reformas fiscais profundas, aumentou gastos públicos, elevou a carga tributária e ampliou a dívida francesa. O mercado financeiro continuou comprando títulos franceses sem hesitação. Conclusão: o sistema financeiro global prefere aquilo que garante lucro.


O sistema financeiro global é pragmático. E, historicamente, governos de esquerda e centro‑esquerda criam condições que favorecem sua rentabilidade: mais gasto público, mais dívida, mais emissão de títulos, mais inflação e, portanto, juros mais altos. Enquanto isso, a população enfrenta crédito caro, perda de poder de compra e menor capacidade de investimento. O mercado financeiro prospera em ambientes onde o Estado é grande, a dívida é alta e a política monetária precisa ser constantemente acionada para conter pressões inflacionárias. Esse processo, historicamente, ocorre com mais frequência sob governos de esquerda e centro-esquerda, conforme foi demostrado.


 

O histórico brasileiro em síntese


A história econômica brasileira desde o início dos anos 2000 oferece um laboratório perfeito para entender por que o sistema financeiro global frequentemente opera com conforto sob governos de esquerda e centro‑esquerda. O padrão observado combina expansão fiscal, aumento da dívida pública, crescimento do crédito e ciclos de juros muito elevados. Esses elementos, juntos, criam um ambiente fértil para a rentabilidade do mercado financeiro usurário. A seguir, detalhamos esse processo ao longo das últimas décadas.


1.O ciclo de expansão fiscal e do crédito nos anos 2000: Governo Fernando Henrique Cardoso (2000–2002) e Governo Lula (2003–2009)


Durante os anos 2000, o Brasil viveu um período de forte crescimento econômico artificial, impulsionado pelo aumento do gasto público, pela expansão de programas sociais e pela ampliação do crédito, em um cenário internacional favorável, marcado pela alta das commodities. As commodities são bens físicos básicos, geralmente de origem agrícola, mineral ou energética, usados como matéria‑prima para produzir outros produtos. Esse conjunto de fatores gerou maior circulação de dinheiro, aumento da demanda interna e crescimento acelerado do PIB (Produto Interno Bruto).


Do ponto de vista do sistema financeiro, esse ambiente foi extremamente favorável: o crédito cresceu em ritmo recorde, os bancos ampliaram seus lucros e o mercado de capitais se fortaleceu. Ao mesmo tempo, a expansão fiscal elevou a necessidade de financiamento do Estado, resultando em maior emissão de títulos públicos, o principal instrumento de investimento dos fundos.


2. A dinâmica da inflação e dos juros


Com o aquecimento artificial da economia e o aumento do consumo, a inflação começou a subir. Para contê‑la, o Banco Central adotou ciclos de alta da taxa Selic. E aqui está o ponto crucial: juros altos são ruins para o consumidor, mas excelentes para o sistema financeiro, que lucra com títulos públicos mais rentáveis.


Esse padrão se repetiu diversas vezes: expansão fiscal → inflação → juros altos → rentabilidade elevada para o mercado financeiro. O sistema financeiro global, que compra títulos brasileiros, também se beneficiou desse movimento.


3. Aumento da dívida pública e previsibilidade institucional


Governos de esquerda no Brasil, assim como já mostrado em outros países, tendem a ampliar programas sociais e aumentar investimentos públicos, evitando cortes profundos de gastos. Isso leva a um crescimento contínuo da dívida pública. Para o mercado financeiro, isso significa:


• oferta constante de títulos,

• previsibilidade de remuneração,

• ambiente estável para operações de longo prazo.


Além disso, o Brasil manteve:


• autonomia do Banco Central,

• respeito a contratos,

• diálogo com organismos internacionais.


Essa combinação — expansão fiscal + estabilidade institucional — é exatamente o que o sistema financeiro global considera ideal.


4. O período pós‑2010: desaceleração, inflação e juros elevados


A partir da década de 2010, o Brasil enfrentou:


• desaceleração econômica,

• aumento da inflação,

• deterioração fiscal,

• queda da confiança empresarial.


Para conter a inflação, o Banco Central elevou novamente a Selic, levando‑a a patamares muito altos. Mais uma vez, juros altos prejudicaram o consumo e o crédito, mas aumentaram a rentabilidade dos títulos públicos.


Mesmo em períodos de instabilidade política, o sistema financeiro continuou operando com segurança, justamente porque a dívida pública cresceu, a emissão de títulos aumentou e o país manteve regras claras para investidores.


5. O padrão histórico brasileiro: expansão social e mais juros altos


Ao observar as últimas duas décadas, um padrão se destaca: governos de esquerda, e principalmente de centro‑esquerda, tendem a gerar um ambiente econômico que combina:


• expansão fiscal,

• aumento da dívida pública,

• pressão inflacionária,

• necessidade de juros elevados,

• grande oferta de títulos públicos.


O conjunto desses fatores mostra por que o sistema financeiro global costuma operar com tranquilidade sob governos de esquerda no Brasil: esse é exatamente o ambiente que o mercado valoriza. A experiência recente indica que políticas de expansão fiscal e programas sociais amplos aquecem a economia sem elevar a produção industrial, gerando um crescimento artificial que pressiona a inflação e exige juros mais altos para conter o avanço da dívida pública. Para a população, isso se traduz em crédito caro e perda de poder de compra; para o sistema financeiro, em rentabilidade elevada e previsibilidade.


Esse padrão recorrente revela contradição apenas aparente: embora o discurso público do mercado financeiro frequentemente critique governos de esquerda, na prática esses governos criam condições que favorecem o setor — estabilidade operacional, demanda aquecida e juros altos sustentados por déficits maiores. Assim, a convivência entre o mercado financeiro global e governos de esquerda ou centro‑esquerda no Brasil tende a ser mais harmoniosa do que o debate político sugere.


 

Considerações finais


O panorama histórico analisado revela um paradoxo estrutural que desafia tanto o discurso político quanto a percepção pública sobre a relação entre governos de esquerda e o sistema financeiro. A recorrência do ciclo — expansão fiscal, pressão inflacionária, juros elevados e aumento da dívida pública — mostra que, apesar das narrativas de antagonismo, há uma complementaridade funcional entre políticas sociais amplas e a lógica de rentabilidade do mercado financeiro. Essa convergência não é acidental: ela decorre de um arranjo institucional que transforma a dívida pública em um ativo altamente lucrativo, protegido por regras rígidas, autonomia monetária e previsibilidade contratual.


O caráter crítico desse padrão reside no fato de que ele produz ganhos assimétricos. Enquanto a população enfrenta crédito caro, perda de poder de compra e baixo dinamismo produtivo, o sistema financeiro opera em um ambiente de segurança e retorno elevado, independentemente do ciclo político. A economia real, por sua vez, permanece presa a um modelo que estimula o consumo sem expandir a capacidade produtiva, gerando crescimento artificial e vulnerável. A consequência é um país que se move entre surtos de expansão e freios monetários bruscos, sem romper com a dependência de juros altos como mecanismo de controle e, simultaneamente, de remuneração.


Esse arranjo revela uma fragilidade estrutural: a incapacidade de transformar expansão fiscal em desenvolvimento sustentável. A política econômica, ao invés de induzir produtividade, inovação e diversificação industrial, acaba reforçando a financeirização da economia. O Estado se torna o maior pagador de juros, e o mercado financeiro, seu credor privilegiado. A retórica de responsabilidade fiscal convive com déficits persistentes, e a crítica ao gasto público convive com a defesa silenciosa de um sistema que lucra justamente com esse gasto.


O resultado é um modelo que beneficia poucos e penaliza muitos, mantendo o país em um ciclo de dependência de capital financeiro e vulnerabilidade macroeconômica. A harmonia entre governos de esquerda e centro-esquerda e o mercado financeiro não é sinal de estabilidade virtuosa, mas de um equilíbrio que perpetua desigualdades e limita a capacidade de transformação estrutural da economia brasileira. Romper esse padrão exigiria repensar a função da política fiscal, a estrutura da dívida pública e o papel do sistema financeiro. Algo que, até agora, nenhum governo se dispôs a enfrentar de forma profunda.


A questão que permanece é se o Brasil continuará reproduzindo esse ciclo ou se será capaz de construir um modelo que concilie inclusão social com desenvolvimento produtivo, reduzindo a dependência de juros elevados como pilar de estabilidade. Essa é a fronteira crítica que ainda não foi atravessada. 



Referências

 

BACHA, Edmar; BONELLI, Regis. O crescimento econômico do Brasil: uma visão histórica. Rio de Janeiro: Campus, 2005.

FRIEDMAN, Benjamin M. The Moral Consequences of Economic Growth. New York: Alfred A. Knopf, 2005.

GOODHART, Charles A. E. The Evolution of Central Banks. Cambridge, MA: MIT Press, 1988.

GOUVERNITCH, Peter. Politics in Hard Times: Comparative Responses to International Economic Crises. Ithaca: Cornell University Press, 1986.

HUDSON, Michael. Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Destroy the Global Economy. USA: ISLETVerlag, 2015.

MISHKIN, Frederic S. The Economics of Money, Banking, and Financial Markets. 10. ed. Boston: Pearson, 2013.

NAUGHTON, Barry. The Chinese Economy: Transitions and Growth. Cambridge, MA: MIT Press, 2007.

PEDRO, Antônio Fernando. P. A Autofagia Nacional – O Último Estágio Antes do Fim do Estado. Disponível em: https://www.theeagleview.com.br/2017/01/autofagia-nacional-o-ultimo-estagio.html.

PEDRO, Antônio Fernando P. Grande Desânimo Brasileiro. Disponível em: https://www.theeagleview.com.br/2017/01/autofagia-nacional-o-ultimo-estagio.html.

 

Sobre a autora (*)

 




Marilene Nunes é Doutora em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo (USP), Mestra em Economia Política e Pedagoga pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além de Especialista em Gestão do Conhecimento pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). Possui ampla experiência acadêmica, tendo atuado como docente e pesquisadora na Universidade Estadual Paulista (UNESP), com participação na Graduação e nos Programas de Pós-Graduação em nível de Mestrado e Doutorado, desenvolvendo atividades de ensino, pesquisa e orientação acadêmica. Lecionou no Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental da Universidade SENAC, onde orientou diversos projetos voltados à temática ambiental. Integra o Núcleo de Estudos Diversitas da USP e atuou como especialista no Conselho Estadual de Educação de São Paulo (CEE) e no Ministério da Educação durante a gestão Bolsonaro. Atualmente, exerce a função de Diretora Pedagógica da UNIÁGUA (Instituto Universidade da Água), é consultora nas áreas de Gestão Educacional e Educação Ambiental da AICA – Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental e membro do Conselho Editorial do Portal e Revista Ambiente Legal. É autora de diversas publicações nacionais e internacionais, além de escrever regularmente para o blog The Eagles View e para a Revista Digital Portal Ambiente Legal.

 

 

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seja membro do Blog!. Seus comentários e críticas são importantes. Diga quem é você e, se puder, registre seu e-mail. Termos ofensivos e agressões não serão admitidos. Obrigado.