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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A RECONFIGURAÇÃO DA GEOPOLÍTICA E SEU IMPACTO NO MUNDO

O FIM DO GLOBALISMO E A ASCENSÃO DA ORDEM MULTIPOLAR





“O futuro não pertence aos globalistas. Pertence aos patriotas”

Donald John Trump, 47º Presidente dos EUA



Por Marilene Nunes



Resumo

Este ensaio analisa a transição do paradigma globalista para uma ordem multipolar baseada em blocos civilizacionais. Argumenta-se que o declínio das instituições supranacionais e o fortalecimento de Estados soberanos refletem uma mudança estrutural na política internacional contemporânea. A ascensão de lideranças como Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping acelera esse processo, reforçando a centralidade da soberania, da identidade civilizacional e da geopolítica. O texto discute o esgotamento do modelo unipolar, o papel das instituições multilaterais e a emergência de novos polos de poder, concluindo que o século XXI tende a ser marcado por disputas entre narrativas civilizacionais e pela reorganização profunda da ordem mundial.

Palavras‑chave: globalismo; multipolaridade; geopolítica; soberania; civilização.


Introdução

Este ensaio examina a transformação estrutural da ordem internacional, marcada pelo declínio do globalismo e pela ascensão de uma configuração multipolar baseada em grandes blocos civilizacionais. Esses blocos são formados por diversos Estados‑nação que se alinham por proximidade territorial e por valores culturais enraizados em tradições civilizatórias.

Argumenta-se que o retorno de Donald Trump ao poder, somado ao protagonismo de Xi Jinping e Vladimir Putin, acelera a erosão do universalismo e das instituições supranacionais que sustentaram a lógica do mundo unipolar nos pós‑Segunda Guerra Mundial. Tradicionalmente, o termo “unipolar”, conforme a geopolítica clássica, descreve um sistema internacional no qual existe apenas uma superpotência dominante, capaz de exercer influência significativa em questões militares, econômicas e políticas sem enfrentar desafios relevantes de outros Estados. No entanto, no caso do globalismo, o centro de poder se distribui por instituições supranacionais controladas por uma elite financeira, funcionando como uma espécie de Estado Ampliado e profundo que orienta diretrizes de alcance mundial.

A emergência de potências soberanas que reivindicam seus próprios valores e narrativas históricas evidencia o esgotamento do paradigma globalista e inaugura um ciclo no qual as civilizações recuperam centralidade política. Nesse novo cenário, decisões estratégicas passam a ser moldadas por acordos bilaterais, em vez de reguladas prioritariamente por organismos supranacionais.

Nesse panorama, a multipolaridade se apresenta não apenas como um rearranjo geopolítico, mas como uma mudança de paradigma: a pluralidade de projetos civilizatórios substitui a pretensão de uma ordem universal homogênea. A realidade tende a ser moldada pela coexistência — e pela tensão — entre múltiplas narrativas civilizacionais. A ênfase na economia cede lugar à centralidade da geopolítica.

Por fim, reconhece-se que a ciência não dispõe de uma lei da história; portanto, não é possível prever com certeza os desdobramentos dos eventos, apenas suas tendências. Assim, este ensaio busca compreender os fatos e delinear possíveis caminhos para a reestruturação da geopolítica contemporânea, sem recorrer a determinismos.


1. O Fim de um Ciclo Histórico

A geopolítica contemporânea se transforma em velocidade que desafia nossa capacidade de assimilação. Cresce a percepção de que um ciclo histórico se encerra enquanto outro, ainda em formação, se impõe com vigor. Nesse contexto, a articulação de uma aliança antiglobalista deixa de ser reação dispersa e passa a assumir contornos estruturantes.

Para alguns analistas, os protagonistas dessa inflexão — Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping — atuam como arquitetos de uma desmontagem gradual do mundo unipolar erguido pelas elites globalistas ao longo dos últimos três séculos.

O edifício do globalismo, sustentado por burocracias transnacionais, organismos supranacionais e uma ideologia uniformizante centrada em um sistema financeiro usurário, revela fissuras cada vez mais evidentes. A promessa de uma ordem universal administrada por tecnocracias distantes perde sua aura de inevitabilidade.

Historicamente, pesquisadores como Paul James (2022) argumentam — de forma equivocada — que formas de globalismo existiam muito antes do capitalismo moderno, remontando ao Império Romano e às redes culturais e comerciais da Antiguidade. A ideia central dessa tese é que as sociedades humanas sempre criaram sistemas que ultrapassam fronteiras locais. No entanto, é fundamental distinguir o conceito de globalismo do de globalização.

Globalização é um conceito de natureza econômica e refere-se à expansão do capitalismo possibilitada pela volatilização do capital e pela interligação das condições gerais de produção para além dos Estados-nação, processo impulsionado pelos surtos de produtividade decorrentes da implementação tecnológica na produção gerando um mercado global.

O globalismo, distinto, é um conceito político e institucional que ganha força nos pós‑Segunda Guerra Mundial. A partir de 1945, o termo passou a ser associado a movimentos coordenados pela elite capitalista financeira para estruturar instituições transnacionais, como a ONU, UNESCO, Banco Mundial e diversas outras organizações multilaterais, com o objetivo de formar um Estado Ampliado e oficial. Antes desse período, o poder dessa elite se exercia de forma mais discreta, por meio da influência de um “estado profundo” e de sociedades secretas.

As instituições do chamado Estado Ampliado, embora apresentadas como mecanismos destinados a promover a paz e a cooperação internacional, funcionaram, na prática, como instrumentos de expansão do sistema financeiro global e de concentração de poder nas mãos dos globalistas, influenciando áreas centrais do desenvolvimento humano.

O discurso oficial prometia evitar novas guerras e organizar uma ordem mundial pacífica; no entanto, o que se observou foi a consolidação de estruturas que reforçaram assimetrias políticas e econômicas. Nesse contexto, o termo “globalismo” passou a designar uma visão de mundo que não apenas valoriza a interdependência entre países, mas também legitima a centralização do controle econômico e político pelo capital financeiro — frequentemente recorrendo a conflitos armados como estratégia para obtenção de vantagens econômicas ou geopolíticas, configurando um poder de caráter unipolar.

A ideia de polaridade em Relações Internacionais descreve como o poder se distribui no sistema internacional. A unipolaridade ocorre quando apenas um polo de poder concentra capacidades militares, econômicas e políticas suficientes para moldar a ordem global segundo seus próprios interesses. Esse ator dominante projeta força em praticamente qualquer região, influencia normas internacionais e orienta o funcionamento das instituições multilaterais. O período pós-Guerra Fria, marcado pela supremacia dos Estados Unidos, é frequentemente citado como exemplo desse arranjo. A noção de polaridade, portanto, ajuda a identificar quem define agendas, quem estabelece regras e como os demais países se alinham ou resistem.

Dentro dessa perspectiva crítica, argumenta-se que o chamado “sistema globalista” — embora não seja um Estado no sentido jurídico clássico — operou e ainda opera como um Estado Ampliado, isto é, um conjunto de instituições multilaterais, organismos financeiros, corporações transnacionais e redes de influência que, articulados, exerceram funções típicas de um aparato estatal em escala supranacional. Esse Estado Ampliado não se apresenta como soberano, mas atua como tal: fórmula diretrizes, impõe padrões culturais, regula comportamentos econômicos e interfere na autonomia decisória das nações.

A crítica central é que esse arranjo produziu um poder difuso, porém profundamente eficaz, capaz de moldar políticas internas sem recorrer à coerção direta. Em vez de tanques e exércitos, utiliza mecanismos normativos, pressões diplomáticas, dependência financeira, controle tecnológico e narrativas culturais globalizadas. O resultado é a formação de uma cultura política homogênea, que tende a deslegitimar modelos alternativos de organização social e a reduzir a pluralidade cultural e institucional dos Estados.

Nesse sentido, o Estado Ampliado global funciona como uma estrutura de poder que ultrapassa fronteiras, mas não presta contas a nenhuma população específica. Sua legitimidade deriva menos de processos democráticos e mais da autoridade técnica, da influência econômica e da capacidade de definir o que é considerado “aceitável” ou “moderno” no cenário internacional. Isso configura uma forma de poder totalizante, que se infiltra em diversas esferas da vida humana — da economia à educação, da cultura ao comportamento social — e que, ao fazê-lo, limita a soberania real das nações e a diversidade de projetos civilizatórios.

O Estado Ampliado, na prática, exerce poder estatal e atua como tal quando:

• Define padrões de conduta (direitos humanos, meio ambiente, segurança, saúde).

• Estabelece legitimidade internacional: um governo reconhecido pela ONU adquire status de “governo legítimo”.

• Interfere em soberanias por meio de resoluções vinculantes do Conselho de Segurança.

• Produz narrativas globais que influenciam políticas internas (agenda climática, direitos sociais, políticas de gênero etc.).

As organizações multilaterais associadas ao globalismo constituem a estrutura de governança global e totalitária que sustenta um Estado Ampliado cuja função, segundo essa perspectiva, é manter o poder unipolar da elite financeira há quase um século. A seguir, algumas das mais importantes instituições do Estado Ampliado Globalista e suas formas de operar:

ONU (Organização das Nações Unidas)

Frequentemente vista como um fórum neutro, sob a lente do Estado Ampliado ela aparece como um centro de produção de normas globais que moldam o comportamento dos Estados. O Conselho de Segurança, por concentrar poder em poucos países com veto permanente, cria uma hierarquia global que se assemelha a um governo mundial informal, no qual alguns decidem e todos obedecem.

FMI (Fundo Monetário Internacional)

É um dos exemplos mais claros de como o Estado Ampliado opera por meio do poder econômico e do disciplinamento financeiro. Impõe condicionalidades para empréstimos que afetam diretamente políticas internas (reformas fiscais, privatizações, cortes sociais). Funciona como um órgão regulador supranacional da política econômica dos países endividados, criando dependência estrutural, especialmente em países periféricos. O FMI não apenas “aconselha”: impõe modelos econômicos que moldam o Estado nacional por dentro, sem passar por processos democráticos locais.

Banco Mundial

Atua como um planejador global do desenvolvimento, influenciando políticas públicas em áreas como educação, infraestrutura, saúde e meio ambiente. Financia projetos condicionados a reformas institucionais e define o que é considerado “desenvolvimento adequado”, criando padrões globais de governança. Produz conhecimento técnico que se torna referência obrigatória para governos. Assim, funciona como um “ministério global do desenvolvimento”, definindo prioridades e modelos que os países devem seguir para serem considerados “modernos”.

OMC (Organização Mundial do Comércio)

Estabelece regras que moldam profundamente as economias nacionais. Impõe normas comerciais obrigatórias que limitam políticas industriais e protecionistas. Atua como um tribunal supranacional, julgando disputas entre Estados, e define o que é “comércio justo”, influenciando legislações internas. Ao subordinar políticas econômicas internas a regras globais — frequentemente alinhadas aos interesses das grandes potências e corporações — reduz a autonomia dos Estados.

OMS (Organização Mundial da Saúde)

Ganhou destaque especial durante crises sanitárias. Emite diretrizes globais que moldam políticas de saúde nacionais e atua como autoridade técnica que influencia decisões governamentais. Coordena respostas internacionais que podem limitar ações soberanas. Funciona, assim, como um “ministério global da saúde”, com grande poder de definir protocolos que impactam diretamente a vida cotidiana.

UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)

Integra o Estado Ampliado ao exercer influência cultural, educativa e científica em escala global. Molda valores, normas e percepções ao produzir e difundir conhecimento considerado “legítimo”. Delibera padrões internacionais de educação, ciência e cultura. Elabora relatórios, indicadores e recomendações que orientam políticas públicas.

A UNESCO influencia sistemas educacionais ao propor diretrizes curriculares (educação para a paz, direitos humanos, sustentabilidade), incentiva reformas, forma professores e gestores e promove valores como diversidade cultural, igualdade de gênero e liberdade de expressão. Seus acordos internacionais criam um “consenso moral” que ultrapassa fronteiras nacionais. A chancela da UNESCO funciona como selo de legitimidade simbólica, reforçando modelos hegemônicos de desenvolvimento, educação e cultura. Assim, atua como aparelho privado de hegemonia ao produzir consenso, difundir valores e orientar práticas sociais e políticas.

OIT (Organização Internacional do Trabalho)

Funciona como Estado Ampliado ao exercer poder normativo, moral e político sobre o mundo do trabalho, mesmo sem ser um Estado soberano. Produz normas internacionais, convenções e recomendações que moldam legislações nacionais. Mesmo sem poder coercitivo direto, suas normas orientam políticas públicas, influenciam tribunais, mediam conflitos entre classes, moldam comportamentos de governos e empresas e difundem valores de “trabalho decente”. Sua autoridade é moral, técnica e normativa — característica típica do Estado Ampliado.

Toda a estrutura organizacional do Estado Ampliado Globalista, articulada à governança global conduzida pela elite financeira, encontra‑se em processo de desgaste. O surgimento de movimentos sociais e políticos de orientação conservadora seriam expressão desse fenômeno, relacionado ao esgotamento do paradigma globalista. Nesse contexto, ganha força a perspectiva de uma Nova Ordem Multipolar, capaz de restaurar a soberania dos Estados‑nação e reafirmar seus valores civilizacionais, além de pôr em xeque todo o sistema financeiro usurário da elite financista.

Em substituição à unipolaridade globalista, delineia‑se uma ordem multipolar que surge não apenas como alternativa, mas como desdobramento natural do declínio do modelo anterior — uma configuração mais plural, estratégica e, para muitos, mais condizente com a diversidade civilizacional do mundo.


2. A Ascensão da Ordem Multipolar

O globalismo, que durante décadas se apresentou como destino inevitável da humanidade, revela-se hoje como um projeto historicamente datado. Sua promessa de integração total, mercados sem fronteiras e identidades dissolvidas em uma cidadania global abstrata perde força diante da revalorização das raízes civilizacionais.

O que emerge é um mundo mais plural, mais tenso e, ao mesmo tempo, mais realista — um cenário em que a diversidade de projetos civilizatórios substitui a uniformidade imposta por tecnocracias distantes. A multipolaridade desloca o centro de gravidade da política internacional:

• do universal para o particular,

• do abstrato para o concreto,

• do idealismo globalista para a afirmação das civilizações.

Cada potência passa a se compreender como portadora de um legado histórico que não pode ser reduzido a métricas econômicas ou a modelos institucionais padronizados.

O colapso do edifício globalista não ocorre de forma abrupta, mas por erosão. As instituições multilaterais, antes vistas como pilares de estabilidade, mostram-se incapazes de responder às dinâmicas do século XXI e convertem-se em símbolos de um passado que se desfaz. Sua legitimidade se esvai à medida que as sociedades percebem que seus interesses não são representados por elites transnacionais, mas por Estados que retomam o protagonismo.

A nova ordem multipolar não nasce de um manifesto, mas de um processo histórico que se impõe pela força dos acontecimentos. Ela resulta simultaneamente do esgotamento de um paradigma e da vitalidade de outro. O mundo abandona a lógica única e retorna à pluralidade que sempre o caracterizou.

O século XXI tende a ser marcado por disputas entre narrativas civilizacionais. Não se trata de um retorno ao passado, mas de uma reorganização profunda das forças culturais e políticas. O que está em jogo não é apenas poder, mas sentido. Cada bloco soberano busca afirmar:

• sua visão de mundo,

• sua forma de vida,

• sua interpretação do humano.

A política internacional volta a ser um espaço de confronto entre projetos civilizatórios, e não apenas entre interesses econômicos. Nesse contexto, a geopolítica reassume centralidade.

A multipolaridade pressupõe a existência de vários polos de poder capazes de influenciar decisões internacionais, definir agendas e defender modelos próprios de desenvolvimento. Nenhum deles, porém, possui força suficiente para impor sozinho sua vontade ao restante do mundo. A dinâmica resultante combina competição e cooperação: os polos disputam influência, mas também colaboram em áreas como comércio, energia, tecnologia e segurança.

Esse cenário fortalece a valorização da soberania nacional, pois a multipolaridade reforça a ideia de que cada país pode seguir seu próprio modelo político, econômico e cultural, sem se submeter a um padrão único. A diversidade civilizacional ganha espaço, permitindo que diferentes tradições e visões de mundo coexistam e reduzindo a centralidade de um único paradigma global.

A transição para a multipolaridade decorre do desgaste do modelo unipolar e é impulsionada por fatores como a ascensão econômica e tecnológica de países não ocidentais, o enfraquecimento das instituições criadas nos pós‑Segunda Guerra, crises financeiras recorrentes, o fortalecimento de alianças regionais e a busca crescente por autonomia estratégica em energia, defesa e tecnologia.

Entre as consequências práticas desse processo estão a ampliação das negociações multilaterais, a reconfiguração de alianças, a formação de novos blocos regionais e a intensificação das disputas tecnológicas — envolvendo 5G, semicondutores e inteligência artificial. Ao mesmo tempo, cresce a diversificação econômica e a redução de dependências externas.

Assim, os debates internacionais tendem a se concentrar cada vez mais em valores, modelos de sociedade e caminhos de desenvolvimento.


3. O Papel de Donald Trump na Reconfiguração Geopolítica

A Nova Ordem Multipolar não é apenas uma alternativa ao globalismo ou ao unipolarismo: ela emerge como consequência natural da redistribuição do poder mundial. Trata-se de um cenário mais complexo e o retorno de Donald Trump ao poder assume uma dimensão histórica. Mais do que um simples episódio eleitoral, o fenômeno do trumpismo se consolida como catalisador de uma profunda reconfiguração da ordem internacional. Ele simboliza o declínio do globalismo e a ascensão de um sistema baseado em grandes blocos de potências soberanas, cada qual reivindicando o direito de definir seus próprios rumos.

A gestão Trump, que completou um ano em janeiro de 2026, acelera o desgaste da arquitetura internacional fundada no universalismo progressista, na hegemonia americana de orientação globalista e nas instituições multilaterais tradicionais. Os Estados Unidos deixam de atuar como guardiões do globalismo — papel associado às administrações democratas — para se reposicionarem como uma potência que afirma seus próprios interesses civilizacionais. Esse reposicionamento envolve o reforço da identidade nacional e a rejeição ao progressismo e ao wokismo, entendidos como expressões culturais de um projeto globalizante em declínio.

Donald Trump se apresenta como líder de uma aliança antiglobalista e do Bloco Ocidental das Américas, articulando-se com lideranças com Vladimir Putin e Xi Jinping e diversos chefes de Estado conservadores ao redor do mundo. As afinidades ideológicas e estratégicas entre esses líderes têm se revelado de forma constante nos últimos 12 anos no combate ao globalismo.

A ordem multipolar que se consolida caracteriza-se pela existência de múltiplos centros de poder soberanos, estruturados em grandes civilizações continentais — como a Eurásia liderada pela Rússia, as Américas sob a liderança dos EUA na gestão Trump e a China sob Xi Jinping. Em oposição à unipolaridade globalista, esse modelo busca equilibrar tradição e soberania dos “grandes espaços” contra a homogeneização promovida pelo progressismo globalista.

O governo Trump tem como objetivo central o combate direto ao globalismo, rejeitando explicitamente as instituições multilaterais que compõem o arcabouço do chamado Estado Ampliado. Ao romper acordos internacionais considerados mecanismos de governança global, sua administração promove uma reconfiguração profunda do sistema unipolar. Entre as principais ações antiglobalistas, destacam-se:

1. Revisão cultural e combate ao “wokismo”

O primeiro grande ato do governo Trump foi libertar os presos do episódio de 6 de janeiro no Capitólio. Em seguida, iniciou uma agenda de enfrentamento à cultura woke, vista como instrumento de influência globalista. As políticas contra o “wokismo” buscam reduzir a centralidade de pautas identitárias, limitar programas de diversidade e reverter mudanças culturais progressistas.

A administração tem se posicionado contra programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), contra a teoria racial crítica e contra políticas de gênero. Termos como “transgênero”, “não binário” e “crise climática” foram removidos de documentos oficiais. Empresas como McDonald's, Walmart, Ford e Boeing foram pressionadas a reduzir iniciativas de diversidade. Além disso, o governo encerrou programas da USAID voltados ao financiamento de pautas identitárias, levando à extinção dessa estrutura.

2. Controle rígido de fronteiras e política migratória

O segundo eixo de ação foi a implementação de políticas rigorosas de controle de fronteiras, entendidas como defesa da soberania nacional e contraponto à agenda globalista de fronteiras abertas. Trump se opôs a pactos internacionais sobre migração, argumentando que eles limitariam a capacidade dos EUA de decidir quem entra no país.

3. Confronto com instituições internacionais

O governo impôs sanções a membros do Tribunal Penal Internacional (ICC) envolvidos em investigações relacionadas a cidadãos norte‑americanos e aliados como Israel, interpretando o tribunal como instrumento de interferência global.

Além disso, retirou os EUA de organizações e acordos multilaterais, como a ONU, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Acordo de Paris, enfraquecendo um dos principais pactos globais de cooperação ambiental.

4. Reafirmação da doutrina “America First”

Trump reconfigurou o America First como eixo de política externa, priorizando interesses nacionais acima de compromissos multilaterais. Isso incluiu críticas e pressões sobre instituições como ONU, OMC e outras estruturas de governança global.

A administração defende a soberania nacional acima de qualquer coordenação internacional e a redução do envolvimento dos EUA em conflitos externos. Trump argumenta que o país deve evitar guerras prolongadas e crítica a ONU por sua incapacidade de resolver crises — uma postura frequentemente associada ao isolacionismo.

Essas ações não representam um isolamento completo, como apontam alguns analistas, mas configuram uma ruptura com o modelo tradicional de liderança global exercido pelos EUA desde os pós‑Segunda Guerra Mundial. A lógica central dessa nova orientação pode ser sintetizada em quatro pilares: menos dependência de instituições internacionais, mais autonomia nacional, menos compromissos multilaterais e maior ênfase em acordos bilaterais e pressão direta sobre outros países. Competitivo, mas também mais representativo da diversidade global e, em muitos aspectos, mais humano.


Considerações Finais

A reconfiguração geopolítica analisada ao longo deste ensaio revela um mundo em transição profunda, no qual antigas estruturas de poder perdem força enquanto novos polos civilizacionais emergem com assertividade. O declínio do globalismo — entendido como um projeto político‑institucional de centralização supranacional — não implica o fim da interdependência entre Estados, mas sim o esgotamento de um modelo que buscou uniformizar culturas, economias e formas de vida sob uma lógica unipolar.

A ascensão da ordem multipolar expressa o retorno das civilizações como protagonistas da história. Nesse cenário, Estados soberanos recuperam a capacidade de definir seus próprios rumos, guiados por valores, tradições e interesses estratégicos que não se ajustam a um padrão universalista. A pluralidade volta a ser a regra, e não a exceção.

O papel desempenhado por lideranças como Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping acelera esse processo ao desafiar diretamente as instituições e narrativas que sustentaram o paradigma globalista. Suas ações — ainda que distintas em forma e intensidade — convergem na defesa de modelos civilizacionais próprios e na rejeição à centralização tecnocrática.

O mundo que se desenha é mais complexo, mais competitivo e, ao mesmo tempo, mais representativo da diversidade humana. A multipolaridade não elimina tensões; ao contrário, as torna mais visíveis. Mas também abre espaço para arranjos mais equilibrados, nos quais diferentes projetos civilizatórios podem coexistir e negociar seus interesses sem a pretensão de uma ordem única e homogênea.

Assim, compreender essa transição exige reconhecer que estamos diante de um momento histórico singular: o fim de um ciclo e o nascimento de outro. A geopolítica volta a ocupar o centro do palco, e com ela a necessidade de interpretar o mundo não apenas por indicadores econômicos, mas por valores, identidades e disputas simbólicas que moldam o destino das nações. A nova ordem multipolar, ainda em formação, anuncia um século XXI marcado pela disputa entre narrativas civilizacionais — e pela oportunidade de reconstruir a política internacional sobre bases mais plurais, soberanas e enraizadas na realidade concreta dos povos.



Referências

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DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

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FIORI, J. L. O poder global e a nova geopolítica das nações. São Paulo: Boitempo, 2007.

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Marilene Nunes é Pedagoga (UFRGS), especialista em Gestão do Conhecimento (FGV–SP), mestra em Economia Política (UFRGS) e doutora em Gestão e Políticas Públicas em Educação (USP). Atuou como docente na UNESP na graduação e Pós-graduação (Mestrado e Doutorado) e no SENAC na Pós-graduação em Gestão Ambiental. Foi especialista do Conselho Estadual de Educação (SP) e do Ministério da Educação na Gestão Bolsonaro. Integra o Núcleo Diversitas/USP e é Diretora Pedagógica do Instituto Universidade da Água (UNIÁGUA).




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