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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

PSICANÁLISE DO BRASIL

O Trauma Invisível: o Brasil se Acovarda Diante da Própria Grandeza


Vergonha e omissão - Imagem AFPP-IA



Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro



Há povos que carregam traumas explícitos, enfrentam guerras, invasões, ditaduras sangrentas, genocídios. Isso  marca, difere, identifica a pátria. Já a cicatriz... define o povo como uma nação.

Reside aí a enorme diferença entre país, pátria e nação

O Brasil é um país no divã. Carrega um trauma difuso, não nomeado, não elaborado.  Uma ferida que nunca cicatriza porque ninguém admite que ela existe.


Um país que nasceu sem sujeito


O Brasil não nasceu de um pacto, de uma revolução, de uma afirmação coletiva. Nasceu de uma administração. De um decreto. De uma conveniência posta por um poder previamente instituído. 

Não houve um “nós”. Houve um “eles” decidindo... e o "resto" que obedeça.

Essa impressão de passividade desagrega. Segue incutida no país pela necessidade de afirmação de poder de uma casta precária, sem valores, ciente e incomodada pela própria falta de méritos. É também reafirmada diariamente pelos críticos historicistas, que  contaminam os meios intelectuais, empenhados em desprover o Brasil de qualquer tipo de herói ou valor que possa identificá-lo como nação.

Por óbvio, há um trauma psíquico coletivo,  a sensação de estarmos sobre algo que não nos pertence e... se não nos pertence, não defendemos.  Se não defendemos, esperamos que alguém o faça por nós.


O complexo de vira-lata


Nosso complexo de vira-lata não é sobre inferioridade,  é sobre abandono

Nelson Rodrigues nomeou, mas não explicou. O complexo de vira-lata não é apenas achar-se menor. É sentir-se não amado, não reconhecido, não visto. O trauma do filho que nega o pai, que nunca recebeu validação e, por isso, desconfia de qualquer elogio e sabota qualquer conquista.

Esse complexo gera dois comportamentos típicos:

- idolatria súbita (quando alguém se destaca, projetamos nele o herói que não conseguimos ser);  

- destruição imediata (quando o herói ameaça nos lembrar da nossa própria covardia, o atacamos).

É um ciclo infantil, emocionalmente imaturo, psicologicamente corrosivo, coletivamente destruidor.


O gatilho que falta: indignação adulta


O brasileiro se indigna, mas de forma infantil. Indigna-se como quem bate o pé, não como quem assume sua responsabilidade no contexto da revolta. 

Falta o gatilho da indignação adulta, aquela que diz:

“Isso é inaceitável e eu farei algo a respeito.”

Esse gatilho não dispara porque nosso trauma impede sermos agentes, nos reduz a meros espectadores.

Aliás, a desonestidade intelectual dos iconoclastas sistematicos nos aconselha diuturnamente, na mídia hipócrita e nas madrassas tidas como unidades de ensino, a nos mantermos passivos, omissos e sempre rancorosos. 


O bloqueio central: medo da individuação


Jung dizia que individuar-se é tornar-se quem se é.  Isso exige enfrentar a própria sombra. 

O Brasil evita esse processo. Evita porque individuação implica em assumir responsabilidades,  abandonar desculpas, reconhecer limites, enfrentar a própria mediocridade, assumir a própria impotência.  

A potência nos assusta, porque exige ação, exige risco e, sobretudo, coragem.

É mais fácil permanecer na sombra coletiva, onde ninguém se destaca, ninguém é cobrado e a inveja e o rancor se disfarçam de "crítica".

Validamos o que nos ditam os políticos desonestos, porque assim nos omitimos. Aceitamos fatos distorcidos por um jornalismo abjeto, porque a dissimulação política  também dissimula nossa omissão.

Nos orgulhamos da própria mediocridade... e isso incomoda muito.

 

O trauma da comparação com povos que sangram


Quando olhamos para o Irã, para a Venezuela, para povos que enfrentam ditaduras brutais, sentimos algo incômodo: culpa.

Culpa por reclamar muito e arriscar pouco. Culpa por exigir mudança sem pagar o preço. Culpa por esperar que a liberdade venha sem esforço.

Essa culpa não se transforma em ação, transforma-se em ressentimento.  O ressentimento gera cinismo, adota a passividade como escudo.

Sintomática a reação "negativa" observada ante as ações em defesa de valores ou interesses, em outras nações, quando, aqui, o "lado obscuro" claramente envergonha...


O que realmente nos acovarda


Não é o Estado.  Não é a corrupção.  Não é a elite. Não é a pobreza.  

O que nos acovarda é o medo de crescer. É a dor de assumir nossa responsabilidade  e assumí-la pelo coletivo, assumir a indignação própria para deixar de culpar o outro.  Abandonar o conforto vergonhoso da omissão.  

A dor que tememos é a de reconhecer que a sombra é nossa, não dos outros.  

A dor de aceitar que ninguém virá nos salvar, porque nada somos... pois não merecemos.

Compreender, afinal, a diferença de um eterno perdedor "boa vida"... e um vencedor de fato: aquele que luta e tem mérito!


O trauma final: o medo de olhar no espelho


O brasileiro teme o espelho.

Sabemos disso,  porque se olharmos de verdade, veremos a inveja que paralisa, a omissão que corrói e a covardia dissimulada na humildade, a mediocridade travestida de equidade, a sombra que nunca foi integrada à própria figura.

Encarceramos quem ousa se indignar, aplaudimos os atos arrogantes dos psicopatas que nos administram... e nos regogizamos do sofrimento imposto covardemente aos outros. 

No espelho, sobretudo, o país que tanto criticamos é de fato nosso próprio reflexo. A Nação, que almejamos, está obstruída por nossa covardia.

Não cabe aqui apresentar exceções, objetar com outros contextos... buscar refúgio na sublimação em forma de contraditório. 

Se somos "grandes", até quando permaneceremos anões?





Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista, consultor estratégico e ambiental, com serviços prestados e estudos publicados junto a organismos multilaterais como a ONU (Unicri e Pnud), Banco Mundial, IFC, Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, governo brasileiro e grandes corporações. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados e diretor da AICA - Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental, é  membro do Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política da FIESP - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Presidente da UNIÁGUA - Instituto Universidade da Água e Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa - API. É Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.



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