Páginas

sábado, 4 de fevereiro de 2017

MEDICINA, DEDICAÇÃO E LEALDADE

Ética resume o verdadeiro sentido da atividade humana. E nenhuma profissão põe à prova tão constantemente sua ética quanto a medicina.

O médico e sua assistente, exaustos, acompanham a recuperação do paciente após 23 horas de operação - a nobreza da medicina está na dedicação


Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro


O médico é o guardião da vida, o bem maior do ser humano. 

Diligência, cautela e compromisso com o bem estar do paciente constituem deveres sagrados do profissional da saúde.

Medicina é um sacerdócio em prol da vida, pleno de deveres.

O médico deve agir com perícia, observando normas e aprimorando a prática necessária à atividade. Avaliar os progressos científicos de domínio público,conhecer a técnica indicada para cada procedimento ou mal a ser combatido. 

O médico deve ser prudente; prever as consequências de suas ações e atitudes. Prevenir-se e acautelar-se ante precipitações. Ter sangue frio ante o risco para buscar adotar o melhor procedimento - sempre buscando o resultado mais eficaz para o paciente. 

Uma profissão que não perdoa falhas e um sacerdócio que não admite cair em tentações.

A negligência é o pior inimigo da medicina. Por isso o esforço pessoal no cuidado, atenção e precaução constitui condição para o exercício profissional no setor da saúde. 

O médico deve lidar com duas tentações paradoxais, absolutamente interligadas: o  poder de desprezar o sofrimento e o poder de eternizá-lo.

O poder de vida e morte sobre os pacientes, advindo o necessário comando absoluto na condução dos procedimentos, leva à tentação constante, sofrida pelo profissional da medicina, de desprezar os sentimentos pessoais do paciente e seus familiares.

A postura perante os sentimentos do próximo balisa toda a estrutura de apoio ao médico. A atitude do sacerdote da vida que invariavelmente se reflete nos demais atores que integram a estrutura de atendimento. Esse fenômeno é uma praga na rotina diária do atendimento nos hospitais - algo já estudado até mesmo por filósofos como Michel Foucault. 

Outro aspecto ligado à microestrutura de poder na medicina é a funcionalidade da vida.

Da mesma forma, na medida em que a Medicina avança, a possibilidade de salvar e prolongar a sobrevivência do paciente gera o complexo dilema ético do ajuste da funcionalidade da vida ante o sofrimento e a dignidade da existência humana.

Aspectos econômicos, éticos e legais, resultantes do emprego desproporcionado de medidas tecnologicamente avançadas, ou prolongamentos sem outro propósito que não o de manter uma vida atrelada aos aparelhos (e não por aparelhos...), envolvem o requisito da maturidade no partilhamento das decisões críticas.

Medicina é lealdade. 

A lealdade ao paciente e o princípio da não maleficência estão inseridos no próprio juramento de Hipócrates:
"Aplicarei os regimes para o bem do doente, segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei, por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que o induza a perda".

A medicina pratica a lealdade como ciência. Aliás, conquistou a nobreza da doutrina científica pela  sua prática corajosa e continuada desde os primórdios da história clássica.

A complexidade crescente, com o avanço da ciência e dos conhecimentos doutrinários, conferiu ao médico, durante a idade média, uma expressão de respeito antes somente conferida aos advogados, desde os tempos de Roma antiga: o de ser tratado como "doutor".

O tratamento vêm do exercício da doutrina, do ensino em prol da causa, expressado na tribuna. Esse tratamento respeitoso conferido aos profissionais do direito, foi cedido, com a estruturação das universidades, aos mestres e proficientes nas ciências e filosofias - como título acadêmico. Porém, no caso dos médicos, tal qual no dos operadores do direito, Doutor é forma de tratamento respeitosa - pois se a tribuna do advogado é a liberdade, a grande tribuna da doutrina médica é a vida.

A Medicina não é ciência exata, nem tampouco uma atividade-fim. É meio, sujeito a imprevistos que ocorrem e critérios de imprevisibilidade, inerentes à própria resposta do ser humano. Ela é baseada, sobretudo, na dedicação.

Na  abertura do II Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina, em 2010, o professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Elias Knobel, ministrou conferência que muito me tocou, ao registrar que a satisfação do paciente depende de vários fatores, mas o mais importante é a atenção e dedicação dos profissionais de saúde. "Este é o segredo da medicina”, afirmou o Doutor Knobel, que acrescentou: “se uma instituição souber equilibrar qualidade e finanças, certamente ganhará o respeito dos médicos e dos pacientes”.

A nobreza da medicina está, portanto, na dedicação. 

Ética resume o verdadeiro sentido da atividade humana. E nenhuma profissão põe à prova tão constantemente sua ética quanto a medicina.

Essa reflexão me veio à mente ao me deparar com uma foto antiga e profundamente tocante, do cirurgião cardíaco polonês Zbigniew Religa, que tomei a liberdade de postar no início deste texto.

A foto foi tirada em 1987, na Polônia, no hospital de Zabrze. Refere-se ao primeiro transplante bem sucedido de coração realizado na Polônia.

Na foto, o médico luta estoicamente contra o cansaço, acompanhando os sinais vitais do paciente. Na mesma foto, ao fundo, sua assistente repousa em um canto da sala. O transplante havia durado 23 horas. 

Zbigniew Religa foi um dos cardiologistas mais renomados na Polônia, pioneiro em tecnologia médica. Em 1995, se tornou também o primeiro cirurgião a transplantar uma válvula artificial - criada a partir de materiais retirados de cadáveres humanos.

Há outros exemplos igualmente nobres mundo afora. Guardo alguns na família e afins, e cito meus primos Adalberto e seu filho Marcelo Pedro, meu querido primo-irmão Luís Pedro Meireles, meus primos de coração Ana Lúcia e Mário Sérgio Munhoz.

Cito também meu amigo e sempre atento profissional da saúde Paulo Frange, o Dr. João de Vicenzo, que me tratou ortopedicamente dos primeiros dias de vida até me dar alta, aos treze anos, numa recuperação das articulações de meu pé esquerdo que ele mesmo dizia ter sido seu melhor trabalho.

Mas quero fazer um registro especial, aqui, de meu médico e eterno cunhado, Dr. David Uip, que por duas ocasiões salvou a minha vida. E o fez sobretudo pela dedicação.

Bons médicos, portanto, compreendem a responsabilidade melhor que o privilégio.

Desta forma prestam contas e gozam do merecido prestígio a eles conferido pela sociedade.






Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado, formado pela Universidade de São Paulo - USP, jornalista e consultor ambiental. É Sócio diretor do escritório Pinheiro Pedro Advogados, integrante do Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional (Paris), membro do Instituto dos Advogados Brasileiros – IAB, sócio-fundador e membro do Conselho Consultivo da União Brasileira da Advocacia Ambiental - UBAA, Vice-Presidente Jurídico da API - Associação Paulista de Imprensa. É Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.

#éticamédica #medicinaédedicação #

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seja membro do Blog!. Seus comentários e críticas são importantes. Diga quem é você e, se puder, registre seu e-mail. Termos ofensivos e agressões não serão admitidos. Obrigado.