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quarta-feira, 25 de março de 2015

REFLORESTAMENTO COM A MORTE

Transcendência e ecologia no sepultamento dos nossos corpos


Urnas funerárias usadas como capsulas orgânicas viram adubo para árvores



Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro

A morte nunca é um fim. Ela representa uma passagem para outra dimensão da vida. Nosso corpo perece, mas não o que somos. Essa é a razão para tratarmos sempre de forma ritual o depósito do corpo sem vida do ser humano.

Descobertas arqueológicas de fósseis humanos e restos de cemitérios comprovam  a constante histórica de rituais de sepultamento ou cremação dos corpos e, embora a banalização da morte e o desprezo oficial pela vida dos cidadãos seja a tônica da atualidade, a preocupação das pessoas com o destino do corpo sem vida continua igual.

A arquitetura desse descarte fúnebre, no entanto, assume formas inusitadas.

Digno de nota são os antigos sambaquis, enormes montanhas erguidas em baías, praias e foz de grandes rios, por povos que habitaram o litoral do Brasil na Pré-História.

Os sambaquis são constituídos por cascas de moluscos (“tamba ki” significa “amontoado de conchas” em tupi).  neles foram encontrados ossos de mamíferos, equipamentos primitivos de pesca, objetos de arte e ossadas humanas, o que comprova que os sambaquis, tidos como “lixeira pré-histórica”, serviam também como cemitérios.
Sambaquis encontrados em Cabo Frio - RJ

Estruturados como cemitérios verticais, ao serem explorados por arqueólogos, foram encontrados restos de fogueira, de comida, objetos pessoais e mais de 40 mil corpos humanos nos sambaquis espalhados por todo o litoral brasileiro. Suas elevações, em muitos casos, ultrapassaram 30 metros de altura, com centenas de camadas de esqueletos e conchas.

A referência aos sambaquis nos remete, também, à uma forma interessante de “envolver” propositadamente  o corpo humano sem vida, com outras formas de vida, de forma a vê-lo absorvido por estas. Soa algo ecológico e transcendental.

Na atualidade, novos  tipos de “sambaquis” surgem como uma forma ecologicamente correta de projetar essa simbiose entre morte e vida.

Empresas se dedicam, hoje, a oferecer às pessoas uma melhor e menos traumática forma de enterrar ou cremar seus entes queridos. O negócio é rentável e o mercado oferece opções variadas.

Espaços em terrenos próprios para enterro, diversos tipos de caixões e recipientes em casos de cremação indicam não apenas o atendimento a uma demanda pessoal mas, também, uma progressiva preocupação com a falta de terrenos disponíveis para serem utilizados como cemitérios, próximos aos grandes centros urbanos.

Os designers Ana Citelli e Raoul Bretzel apresentam sua Capsula Mundi.
(Foto reproduzida da internet)
Na Itália surge agora uma opção “ambientalmente correta”, porém polêmica: a possibilidade de tornar o morto uma árvore.

A intenção do “The Capsula Mundi” é muito próxima da dos sambaquis. A diferença é o tipo de material organico que travará a simbiose com o cadáver.

A idéia é  mudar o modo como pessoas são tradicionalmente enterradas, integrando-as à natureza. Seria o ciclo da vida transformando cemitérios em “florestas de memórias”.

Idealizado pelos designers italianos, o projeto consiste em uma cápsula orgânica e biodegradável que é capaz de transformar um corpo em decomposição em nutrientes para uma árvore.

 Os designers pretendem relacionar a natural decomposição dos corpos, tornando-os alimento para a árvore escolhida, ainda em vida pela pessoa, que firma um contrato de compra. Competirá aos familiares e amigos se encarregarem de cuidar da árvore.

O grande entrave do projeto é a proibição do governo italiano do uso de certos tipos de caixões bem como as normas de controle ambiental absolutamente desumanizadoras, que reduzem o corpo humano a uma fonte de poluição equiparável ao esgoto industrial…

Os designers informaram que estão trabalhando no sentido de mudar essa realidade e oferecer às pessoas a chance de, após sua morte, contribuírem com seu corpo físico, para a preservação da natureza. Para eles, o projeto permite que a morte se transforme em vida.
Esboço da urna funerária e sua funcionalidade pretendida

O processo do The Capsula Mundi consiste em colocar o corpo do falecido dentro de uma cápsula orgânica e enterrar. Depois é plantado a árvore ou uma semente. escolhida pela pessoa, por cima para aproveitar a matéria orgânica.

A proposta é uma alternativa ecologicamente sustentável sem ter que derrubar árvores para produção de caixões e é considerada ousada por mexer com tradições seculares em relação à morte.

No entanto, o projeto resgata a busca da transcendência, reedita em novas bases o ritual do sepultamento e restabelece, de forma digna, a inclusão do ser humano no ciclo da vida natural.

Não deixa de ser uma bela forma de manter vivas as lembranças dos entes queridos e ainda contribuir para a preservação da vida no planeta.

Para pensar…



Fontes:
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/o-que-sao-sambaquis
http://awebic.com/cultura/adeus-caixoes-capsula-organica-transforma-pessoas-falecidas-em-arvores/
http://odia.ig.com.br/noticia/mundoeciencia/2015-03-03/projeto-propoe-tranformar-pessoas-que-ja-morreram-em-arvores.html
http://www.capsulamundi.it/




Antonio Fernando Pinheiro Pedro  é  advogado (USP), jornalista e consultor ambiental. Integrante  do Green Economy   Task   Force   da  Câmara  de  Comércio   Internacional,  membro  da   Comissão  de Direito Ambiental  do   Instituto dos Advogados Brasileiros - IAB e da Comissão Nacional de Direito Ambiental do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB. Jornalista,  é Editor- Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.




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