A estratégia de recentralização americana em marcha
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| Imagem - AFPP-IA |
Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro
Introdução
A política internacional contemporânea não é mais apenas um jogo de Estados, mas um confronto direto entre doutrinas civilizacionais.
Nesse cenário, o governo Trump busca recentralizar a influência norte americana, restaurar a primazia do capitalismo competitivo, defender a liberdade de expressão e reafirmar a primazia da América. Ações de governança como eixo de soberania nacional.
Desde a campanha eleitoral, Donald Trump sinalizou que não hesitaria em implementar sua política de reposicionar os EUA no topo da geopolítica global e retomar territórios perdidos para as esferas de influência iraniana, russa e chinesa - enquadradas no chamado "Eixo do Mal".
Trump também deixou claro que combateria três doutrinas nocivas ao ocidente: o globalismo euro-progressista e sua agenda de permissividades (democratismo burocrático, antinacionalismo, assistencialismo, meritofobia, ideologia de gênero, racialismo desagregador, imigração indiscriminada, antisemitismo dissimulado e desindustrialização), o narcoterrorismo latino-americano e sua base política de apoio (o Foro de São Paulo) e o terrorismo muçulmano.
Essa estratégia não foi improvisada. Foi anunciada e delineada, entrando em execução logo nos primeiros meses de governo republicano.
A Metáfora de Stars Wars
A neomitologia cinematográfica nos oferece uma gramática simbólica para melhor interpretar o combate republicano ao "império da escuridão". Nele, a ONU e o Parlamento Europeu aparecem como o decadente e obsoleto Senado Galáctico, o BRICS surge como a face visível do Lado Negro da Força, o regime iraniano como os Sith - tomados pelo ódio como impulso para o poder, a Rússia como o Império - com Putin como o Imperador Palpatine (e toda sua ambivalência), e o regime chinês como a Federação do Comércio.
A saga de George Lucas oferece uma gramática simbólica que ajuda a interpretar a disputa global como um embate entre uma República que luta para preservar liberdade e um Império que busca impor controle, uniformidade e expansão.
Essa metáfora não é decorativa: ela é didática.
O mundo real nos apresenta um núcleo defensor da liberdade, que rejeita burocracias supranacionais, censura ideológica e centralização excessiva... e um conjunto de forças expansivas, que operam por meio de doutrinas rígidas, projetos de poder e mecanismos de influência transnacional.
Dentro dessa leitura, a guerra de doutrinas se torna o elemento estruturante da política global.
De um lado, a doutrina implementada por Trump, baseada em:
- liberdade de expressão como valor civilizacional;
- capitalismo competitivo como motor de prosperidade;
- soberania nacional como fundamento da ordem internacional;
- contenção de potências revisionistas;
- desarticulação de redes ideológicas transnacionais;
- restauração da centralidade americana.
Do outro lado, um conjunto heterogêneo, mas convergente, de forças que compõem o denominado Eixo do Mal, formado pelo:
- ódio xiita-sunita, instrumentalizado pelo Irã, patrocinador do terrorismo internacional e antisemita;
- o Russkiy Mir, doutrina russa de expansão cultural e influência estratégica;
- a ambivalência russa, aliada contra o globalismo e adversária em tabuleiros regionais específicos;
- a doutrina chinesa do "Um Cinturão e Uma Rota", projeto de expansão econômica e geopolítica que retoma uma postura milenar;
- o narcoterrorismo latino americano, articulado em redes políticas de esquerda, como o Foro de São Paulo;
- a doutrina Woke nos EUA, vista como corrosiva para a coesão nacional;
- a “invasão bárbara” migratória, interpretada como instrumento de desestabilização interna;
Postas essas diretrizes, o Império de Stars Wars surge não apenas como um governo autoritário mas, sim, como um projeto de controle total. Já a República representa a defesa da liberdade, da diversidade de sistemas e da autonomia dos povos.
Trump, dentro dessa leitura simbólica, assume o papel do agente que confronta estruturas opressivas, decadentes ou perigosas - internas e externas.
Equivoca-se quem pinta os EUA como "o Império". Trump age muito mais como Han Solo. Frases do personagem, tais como "Nunca me diga as probabilidades!" ("Never tell me the odds!"), o "Eu sei" ("I know") ao responder a um "Eu te amo" de Leia... e a cínica "Não existe isso de sorte", caem bem no líder real.
A estratégia trumpista ecoa ainda a máxima do mestre Yoda: “Faça ou não faça. Não existe tentar.”
Darth Vader, por seu turno, está em cada uma das doutrinas em conflito. Como implementador, o que perturba o personagem é a "falta de fé". Como ele diz, "destruir um planeta é insignificante perto do poder da força".
Aos inimigos do ocidente, vale a máxima Sith: "a paz é uma mentira (só existe paixão), paixão gera força, força gera poder, poder gera vitória, e a vitória liberta o indivíduo". Nada mais apropriado ao que exala do chamado Eixo do Mal.
Quanto aos inimigos internos da nova doutrina americana, estes ncontram paralelo na advertência do mestre Jedi: “O medo leva à raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento.”
A metáfora não substitui a análise. Pelo contrário, ela a reforça, organiza percepções, ilumina tensões e ajuda a compreender por que a estratégia americana atual se apresenta como uma guerra de doutrinas, não apenas como uma disputa de poder.
Posto isso, vamos analisar cada um dos cenários submetidos à geoestratégia da doutrina Trump.
O Teatro de Operações da América Latina
No tabuleiro geopolítico, as peças do Foro de São Paulo devem cair para dar espaço à reorientação hemisférica.
A América Latina vive um processo de reconfiguração rápida e profunda. Trump suprimiu do cenário político regional a figura mais paradigmática do "Socialismo do Século XXI": Nicolás Maduro.
A manobra de supressão do ditador da Venezuela foi seguida da surpreendente manobra de "encapsulamento" gradual do regime bolivariano, algo que evitou o caos social e permitiu a captura seletiva dos quadros nocivos à segurança continental. O lance estratégico imediato foi a apropriação do petróleo venezuelano em prol do ocidente e o corte do apoio econômico a Cuba.
O regime cubano, após décadas de rigidez ideológica, sucumbe ao bloqueio petrolífero norte americano e perece ante a crescente revolta popular. O Ditador Canel não teve saída: abriu canais de negociação econômica e energética que aproximam Cuba, gradualmente, da esfera de influência estadunidense.
O movimento repete a inovadora manobra de encapsulamento estratégico de regimes - um sistema de rearranjo interno do poder já instalado, com progressiva remoção das peças - de forma a realinhar o governo e tracionar o Estado para os novos parâmetros ideológicos evitando fraturas e conflitos bélicos.
No caso cubano, Rússia e China sentiram claramente o caráter dissuasório da ação americana. Seus protestos foram formais.
Com isso, o comunismo cubano tem, literalmente, dias contados.
A Colômbia - principal produtor de cocaína do continente, submetida a um governo esquerdista e simpático ao narcoterrorismo, sofre pressão diferenciada, pois o país se aproxima de uma inflexão política decisiva nas eleições de 2026 - que pode resultar num governo realinhado com os EUA.
Os governos esquerdistas do México e Nicarágua enfrentam pressões simultâneas, que limitam sua autonomia - e a tração à direita já se faz sentir.
O Brasil atravessa um ciclo de instabilidade institucional que compromete sua capacidade de coordenação.
O País entra o ano eleitoral com suas instituições em frangalhos, devido a sucessivos escândalos de corrupção. A tendência é que ocorra uma ruptura decorrente da implosão prematura do sistema ou derrota eleitoral fragorosa do regime, seguida da instalação de um governo de direita que restabeleça a Lei e a Ordem.
Assim, a América Latina, que já esteve sob a influência do "Socialismo do Século XXI", hoje testemunha o encolhimento do Foro de São Paulo (ou Grupo de Puebla), e a adesão majoritária dos países sob regimes à direita ao sistema de combate ao narcoterrorismo - até agora denominado "Escudo das Américas" - fortemente alinhado ao governo Trump. Este processo ainda guarda inúmeros capítulos.
O Teatro de operações do Oriente Médio
O lado sombrio, do ódio e do martírio, parece estar sendo desestimulado no mundo árabe e persa. As monarquias sunitas e os regimes xiitas definitivamente cansaram do patrocínio ao terrorismo. A autoridade Palestina, por sua vez, cedeu ao papel dissuasório de Israel. A busca por um algum entendimento tornou-se possível.
Síria adotou uma política de aproximação com Washington e Arábia Saudita dialoga com Israel. O Iraque busca alguma sombra sob o fogo cruzado, Houtis estão sendo dizimados enquanto Paquistão ataca o Regime Talibã no Afeganistão.
Hamas esfarelou e Hezbollah encontra-se com capacidade operacional sensivelmente reduzida. A Faixa de Gaza segue sob ocupação e o cenário é de terra arrasada. Já o Sul do Líbano sofre com incursões cirúrgicas visando eliminar o suporte logístico remanescente dos terroristas.
O Oriente Médio, portanto, é o território onde a metáfora de Star Wars se torna mais evidente.
O Irã aparece como patrocinador de grupos armados e se submete a um regime cuja ideologia de martírio já enfrenta profunda contestação interna. Afora isso, o país sofre com profunda crise de desabastecimento e absoluta falta d'água.
Os gastos militares - não apenas com a guerra que atinge o seu próprio território mas, também, com o fornecimento cada vez mais precário de material para o terrorismo na região, já não é suportado pelo petróleo iraniano - cuja produção é ainda "tolerada", estrategicamente, pelas forças militares israelenses e norte-americanas.
O fato é que o Regime Iraniano está sob intensa pressão e não deverá sobreviver. Deverá ser substituído, não sem danos à economia da energia. Nesse sentido, o fechamento do Estreito de Ormuz é medida desesperada, que irá justificar a internacionalização da passagem em curto prazo.
Israel, por sua vez, opera hoje, em aliança estreita com o EUA, como foco de estabilidade ocidental. O mesmo deverá ocorrer, em proporção bem diversa, com as forças Curdas na região - cuja nação em busca uma terra para chamar de sua.
Os Armênios, desprovidos agora do apoio Russo, tenderão a buscar a esfera norte americana.
Cenários plausíveis, portanto, incluem:
- a internacionalização do Estreito de Ormuz
- a ocupação prolongada de Gaza sob arranjos híbridos
- a consolidação de autonomia curda
- o esfarelamento progressivo da influência iraniana
O fato é que, em poucos meses, a estratégia americana está a interromper todo um ciclo sombrio de décadas na região, por meio de assertividade militar e diplomática.
A Europa e a crise da ordem progressista
A União Europeia aparece como um Senado galáctico em declínio.
Suas instituições supranacionais, tal qual a ONU, perderam capacidade de coordenação.
A crise migratória, especialmente a entrada massiva de imigrantes muçulmanos, tem causado profunda crise etnico-religiosa e cultural no continente e é interpretada como resultado de políticas permissivas adotadas por elites cosmopolitas globalistas.
O avanço de forças soberanistas - incluso com a adoção de comportamentos ultra-nacionalistas ou xenófobos, revela a fragilidade de Bruxelas e o grande desgaste da esquerda progressista, que ainda mantém o globalismo de pé em solo europeu.
Mas o quadro de mudanças se encontra em franco progresso. França, Espanha, Alemanha e Reino Unido reforçam a percepção de decadência institucional por conta da "Síndrome de Chamberlain", que afetou a governança desses países nos últimos anos.
O agronegócio europeu sofre com normas ditadas por Bruxelas e a desindustrialização gera hordas de desocupados, que se somam a refugiados desabrigados, que ostensivamente se recusam a buscar alguma integração com os modos de vida dos países hospedeiros.
A saída política progressista, aos olhos da opinião pública europeia, é a manutenção das agendas do medo: a agenda climática e a agenda da guerra a partir da Ucrânia.
Nesse ponto, o fracasso parece ser duplo.
A genda climática perdeu apoio político americano e está sob duro questionamento de parte da própria comunidade europeia. Tirante os avanços no campo da adaptação e prevenção - cujo avanço tecnológico se torna evidente (em especial no campo da energia), os mecanismos de mitigação geram custos sem que ocorra mensuração palpável de benefícios.
Por sua vez, o conflito na Ucrânia parece se encontrar num impasse estratégico: um moedor de carne humana com a Rússia, cuja única saída parece ser a cessão de territórios ucranianos em direção à base de Sevastopol. Ademais, o território confragrado representa um funil energético que hoje estrangula o fornecimento de gás e óleo para a Europa.
O conflito, visto de outra perspectiva, causou um surto de desenvolvimento para a indústria bélica do continente - o que leva ao famoso impasse simbiótico já visto inúmeras vezes na Europa: crescer e entrar em guerra... ou decrescer e ceder á guerra.
A Rússia e a ambivalência estratégica
A Rússia ocupa posição ambígua.
O Russkiy Mir expande sua influência cultural e estratégica, apesar da intensa propaganda russofóbica ocidental.
Moscou se opõe ao globalismo - o que lhe confere lugar de destaque no movimento conservador no ocidente. No entanto, mantém alianças com todos os regimes que desafiam a ordem ocidental.
A estabilização das frentes de combate na Ucrânia e a pressão diplomática americana, criaram condições para uma negociação que preserve interesses estratégicos, incluindo acesso seguro a Sevastopol. Por outro lado, a guerra no Irã e o encapsulamento do regime venezuelano, enfraquecem o dispositico geoestratégico russo, em especial o fornecimento de material bélico por parte do Irã.
Putin vê sua área de influência se reduzir no outro lado do oceano e ao sul do Kazaquistão. Mas isso não parece abalar o persistente esforço de integração euroasiático russo ou o poder do regime de Wladimir Putin - obstruído pelo conflito na Ucrânia.
A China: Um Cinturão e Uma Rota
A China opera como potência ascendente que busca ampliar sua presença global por meio de infraestrutura, comércio e projeção tecnológica. Sua iniciativa de expansão econômica e diplomática, no entanto, lembra estratégias imperiais que integram sistemas periféricos por dependência material.
O regime Chinês segue uma estudada doutrina de consolidação do comércio internacional. Concentra o mais forte parque industrial do planeta, maior que os nove países seguintes somados. Posto isso, sua estrtégia de defesa está relacionada com a manutenção e proteção das rotas de abastecimento e de insumos necessários à sua produção.
Posto isso, a preocupação com a geopolítica chinesa, de fato, não é propriamente militar mas, sim, com a expansão comercial que iniba o esforço de reindustrialização dos Estados Unidos e retire destes mercados importantes para o seu abastecimento e demanda por insumos. No campo ciberestratégico, os EUA buscam inibir a expansão das redes de comunicação e informação chinesas, posto que absolutamente integradas aos objetivos postos pela doutrina do cinturão e rota (BRI) do regime de Pequim.
Vinculado ideologicamente ao antigo regime soviético, o governo chinês herdou intensa aliança com a Federação Russa, ainda que hoje ocorra diferenças no campo das políticas e economias, além de manter o papel de aliado e protetor dos regimes comunistas remanescentes no planeta (mesmo que guarde muito pouco, hoje, do sistema comunista concebido por Mao).
No campo financeiro, a economia chinesa representa um enorme fator de estabilidade, inclusive para os Estados Unidos, de quem é parceira principal. Essa aparente contradição pode explicar porque a coreografia americano-chinesa é ruidosa no campo geopolítico e harmoniosa no campo diplomático. Ruidosa porque envolve uma competição direta pela hegemonia global, envolvendo segurança, tecnologia e influência territorial, Harmoniosa devido à profunda interdependência econômica e à necessidade mútua de estabilidade para evitar um conflito catastrófico.
Posto isso, e diante das recentes e impressionantes demonstrações de força militar dos EUA, a consolidação de Taiwan como entidade política autônoma, estável e protegida por alianças regionais, apesar das provocações chinesas no entorno da ilha, aparece como cenário plausível.
As doutrinas de Trump e Xi Jinping não rivalizam - dançam uma coreografia no tabuleiro da geopolítica.
Conclusão
A estratégia geopolítica do governo Trump não é fragmentada. Ela é integrada, coerente e orientada por uma visão clara de mundo.
A implementação da Doutrina Trump encontra-se em marcha. Em pouco mais de um ano de governo, a América Latina está sendo reorientada, o Oriente Médio reconfigurado, Europa enfrenta seu colapso institucional, Rússia é contida, China é confrontada, a doutrina woke reflui e a desordem migratória encontra seu fim. .
A política internacional continua sendo um campo onde forças, visões e destinos se confrontam.
Tudo é um processo, nada é imutável.
O governo Trump parece ter consciência plena disso e, com muita transparência, está recentralizando os Estados Unidos nesse dinâmico tabuleiro da geopolítica.
Referências:

Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista, consultor estratégico e ambiental, com serviços prestados e estudos publicados junto a organismos multilaterais como a ONU (UNICRI - United Nations Interregional Crime Research Institute e UNDP - United Nations Development Program), Banco Mundial, IFC, Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, governo brasileiro e grandes corporações. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados e diretor da AICA - Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental, é membro do Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política da FIESP - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Presidente da UNIÁGUA - Instituto Universidade da Água e Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa - API. É Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo blog The Eagle View.
Perfeita análise! O mundo livre depende do sucesso da doutrina Trump
ResponderExcluirMuito interessante a analogia.
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